Joenildo Fonseca Leite*
INTRODUÇÃO
Eclesiologia é a disciplina que estuda a doutrina
da Igreja.
“A igreja é um aspecto da doutrina cristã sobre o
qual praticamente todos, crentes e descrentes, têm uma opinião. Em parte, é
porque, sendo uma instituição da sociedade, a igreja pode ser observada e
estudada pelos métodos da ciência social. Isso, porém, nos apresenta um dilema.
Podemos ser tentados a definir a igreja pelo que é empiricamente. Tal
abordagem, no entanto, poderia confundir o real com o ideal e, assim, por mais
interessante que seja, deve ser evitada.
Outra maneira de analisar e definir a igreja é usar
os mesmos meios usados nas outras partes da teologia sistemática, ou seja,
estudando o material bíblico.
O significado do termo igreja destaca-se melhor
quando estudado no contexto grego e vetereotestamentário.
No grego clássico, a palavra grega usada no Novo
Testamento para designar a igreja (ekklésia) referia-se simplesmente a uma
assembleia dos cidadãos de uma localidade. O equivalente mais próximo do Antigo
Testamento (qáhál) não é tanto uma especificação dos membros de uma assembleia,
mas uma designação do ato de se reunirem.
No Novo Testamento, a palavra igreja tem dois
sentidos. Por um lado, denota todos os crentes em Cristo em todas as épocas e
lugares. Esse sentido universal é encontrado em Mateus 16:18, em que Jesus
promete que construirá sua igreja, e na figura do corpo de Cristo, desenvolvida
por Paulo (ver Ef 1:22-23, Ef 4:4, Ef 5:23).
Com maior frequência, porém, “igreja” refere-se a
um grupo de crentes em dada localidade geográfica. Esse é o sentido claro em
textos como 1Corintios 1:2 e 1Tessalonicenses 1:1”
OBJETIVO
Apresentar a origem, a fundamentação bíblica e
histórica da Igreja e a sua dimensão salvífica, histórica e escatológica.
Apontar a igreja como sinal do Reino de Deus no
mundo e destacar a Igreja no seu aspecto existencial e estrutural como
organismo, corpo vivo de Cristo.
O CONCEITO DE IGREJA NA VISÃO BÍBLICA
Iniciaremos nosso estudo a
partir do conceito básico do significado de Igreja.
Definição: A Igreja é a comunidade de todos os verdadeiros crentes de todos os
tempos.
Considerações negativas
A Igreja não é judaísmo continuado e ampliado –
Embora haja uma continuidade entre os remidos de
todas as eras. A Igreja está fundamentada numa nova aliança. Ela parte do
judaísmo, mas rompe com o judaísmo por meio de Cristo, que cumpre todas as
exigências do judaísmo.
A convocação do povo no Sinai foi estabelecida em
termos condicionais. Era apenas necessário que o povo se multiplicasse e fosse
utilizado como bênção a todas as nações, condição esta que se cumpriu em Jesus.
Grande parte da expectativa judaica referente ao
Messias girava em torno de um reino político e geográfico. Jesus, no entanto,
declarava claramente que o reino dele não era político. Ele pregava o reinar de
Deus no interior do ser humano, enfatizando que o jugo romano sobre Israel do
seu dia não era tema de interesse.
Jesus não tinha interesse político, nem em sentido
pessoal de reinar, nem em libertar Israel da opressão romana. Por outro lado,
ensinou em vários contextos sobre a necessidade do povo ser fiel e servir a
Deus de forma comprometida.
O reinar de Deus por sua mensagem era algo
interior, não uma questão nacional, institucional ou de outra forma externa ao
indivíduo. Sua pregação era com respeito ao compromisso interior com Deus.
Todos aqueles que creram no período antes de
Cristo, na promessa de Deus também fazem parte da Igreja. No culto judaico
tinha uma adoração centralizadora. Somente se adorava de verdade em Israel,
mais especificamente em Jerusalém (Templo), dependiam de sacerdotes para
oferecer seus sacrifícios e ofertas de adoração. Os estrangeiros tinham que se
submeter às leis judaicas, se tornando “judeu” através da circuncisão.
O cristianismo oferece uma religião descentralizadora.
Pode-se adorar de qualquer lugar, não precisa de sacerdotes, nem de templos,
não se oferece mais sacrifícios e nenhuma raça tem domínio sobre outra.
Reflexão: As igrejas de hoje estão libertando os santos para adorarem livremente ou os estão aprisionando novamente? Por que a igreja cristã acumulou tantos fardos em torno de coisas como o prédio, o domingo, o culto e o clérigo?
A Igreja não é o reino de Deus – O
reino é o domínio de Deus sobre a Terra e sobre todo Universo. A Igreja é parte
do Reino. A igreja autêntica existe como a concretização do reinar de Deus e
não pode existir desvinculada deste reino. É na vida da igreja, o povo de Deus,
que o reinar de Cristo tem forma e exercício.
A Igreja não é uma instituição religiosa -
Na Bíblia, a igreja não é uma instituição religiosa, mas um organismo vivo que
se vai transformando em termos organizacionais. De certa forma a igreja é,
conforme implicação de Romanos 9.25 e 1 Pedro 2.9-10, o povo de Deus em
desenvolvimento. Logo, ao tratar da igreja, é necessário tratar de dois
aspectos da mesma: o organismo e a estrutura organizacional que se vem
desenvolvendo naturalmente. Esta é necessária, mesmo que não deva ser vista
como o aspecto principal.
Significado e Usos da Palavra Igreja
Ekklesia (literalmente
do grego) “assembleia” ou “grupo chamado” – O texto bíblico no português usa o termo igreja, mas as conotações
originais do termo muitas vezes estão perdidas na tradução.
O conceito básico do termo igreja surge do hebraicoqahal ou kahal, derivada de uma raiz qal (ou kal)
significa “chamar”, e também do grego ekklesia é
de uma assembleia, tratados por muitos no sentido de “comunidade”. Geralmente
se pensa em termos de haver uma convocação de caráter político, sendo uma
reunião do povo para decidir ou ouvir decisões de importância geral para o
mesmo.
Não existe no Antigo Testamento o que propriamente
se chamaria de igreja, já que o
conceito é do povo como um todo pertencendo a YHWH como nação.
Nesse contexto, emprega-se o termo hebraico ‘edhah’, que designa o
povo de Deus, seja reunido ou não. Na época do exílio, o termo qahal vem
a ser empregado com esse mesmo uso também, mas nunca como uma instituição.
Synagoge é a
versão usual, quase universal no Velho Testamento, de ‘edhah na
Septuaginta, e é também a versão usual de qahal no Pentateuco.
Nos últimos livros da Bíblia [Velho Testamento], porém qahal é
geralmente traduzida por ekklesia.
O Novo Testamento também tem duas palavras,
derivadas da Septuaginta, quais sejam, ekklesia, de ek e kaleo,
“chamar”, “chamar para fora”, “convocar”, e synagoge, de syn e ago,
significando “reunir-se” ou “reunir”. Synagoge no Novo
Testamento é empregada exclusivamente para denotar, quer as reuniões religiosas
dos judeus, quer os edifícios em que eles se reuniam para o culto público, Mt
4.23; At 13.43; Ap 2.9; 3.9.
No caso do Novo Testamento, quando se trata da
igreja em sentido universal ou mesmo local o termo usado é normalmente algo
como “santos” ou “eleitos”, em lugar de “igreja” (ekklesía),
aproveitando também expressões como “noiva” ou “povo de Deus” especialmente ao
tratar da igreja em sentido universal.
Portanto, é necessário ter cuidado ao procurar
sistematizar ensino bíblico a partir de um estudo do emprego do termo bíblico
“igreja”, já que o conceito igreja é comumente tratado com outros vocábulos e o
uso que se faz do termo igreja nem sempre é o que se espera a partir do
português.
Pode ser usada para se referir - A
vários contextos e com vários sentidos no português. O termo igreja pode vir a
designar uma congregação local, uma denominação, uma causa, a igreja de caráter
universal ou “invisível” ou até um prédio onde se reúne um grupo de adoradores.
Em cada contexto deve-se assegurar qual o uso que
se faz do termo. Usaremos aqui como definição prática de igreja, “um
agrupamento de crentes que vivenciam um relacionamento de dependência (fé) em
Jesus Cristo, unindo-se para cumprirem a missão entregue por Deus”.
À assembleia do povo de Israel (At 7.38).
A uma assembleia dos cidadãos de uma cidade (At
19.32,39, 41).
Ao corpo de Cristo (Cl 1.18).
A uma igreja ou assembleia local (1 Co 1.2).
A IGREJA LOCAL
Uma Igreja local
é um grupo de cristãos professos em Jesus Cristo, batizados em nome de Jesus e
organizados com o propósito de fazer a vontade de Deus.
“Diversas
formas da igreja existem, não porque o evangelho é relativo ou ‘aguado’ para
atingir cada possível circunstância, mas porque o evangelho é relevante,
respondendo às divergentes necessidades de pessoas, culturas, e sociedades....
O que é a igreja? Em síntese, é uma comunidade histórica que começa com Deus e
é fundada em Cristo Jesus. É testemunha ao Seu evangelho em seu culto e fé,
trabalho e memória. Através do seu testemunho em palavra e serviço ela aponta
não a si mas para Cristo.... A igreja está continuamente em processo. É uma
noiva sendo preparada para Cristo (2a Coríntios 11.2); é uma comunidade de
peregrinos, escolhidos, mas ainda não completos, sempre seguindo em direção à
promessa do reino de Deus.... Fazer a pergunta ‘O que é a igreja?’ ... é
procurar ‘pela cidade que tem cimentos, cujo construtor e criador é Deus’ -
Heb. 11.10 (Leonard)”.
A igreja é muito mais do que uma congregação local
e é muito mais do que uma estrutura e instituição. Usa-se o retrato da igreja
local como auxílio na visualização concreta do conceito, porém lembra-se a
necessidade de olhar além dos aspectos institucionais, formais e estruturais.
Toda a estrutura e organização elaborada pode ser benéfica, mas deve sempre ser
associada ao propósito da igreja, missão que parte de sua verdadeira natureza.
A Bíblia não estabelece um sistema organizacional
para a igreja, nem contraria a sua elaboração. O que ela oferece é uma missão a
ser cumprida.
É esta missão que deveria unir a igreja mais do que
qualquer outro elemento individual. É por tal motivo, por exemplo, que as
igrejas batistas desde sua origem começaram a se relacionar em associações e
logo em convenções. Queriam estar unidos para melhor cooperarem no
desenvolvimento das tarefas que a igreja local tinha dificuldade em cumprir sem
apoio externo. É também nesse interesse que surge a necessidade de cooperação
entre denominações para cumprirem em conjunto com certos aspectos da missão da
igreja.
O ideal de união para a igreja nunca chegará a
completa satisfação na terra, em função de posições teológicas diferenciadas
entre grupos componentes da Igreja. Estas diferenças surgem de início em
decorrência da incapacidade humana de plena compreensão da Bíblia em sua
íntegra e da debilidade humana em compreender plenamente a vontade do Deus
infinito, revelado em Cristo Jesus.
As Ordenanças da Igreja: O Batismo e a Ceia do Senhor
O Cristianismo no Novo Testamento não é uma
religião ritualística; a essência do Cristianismo é o contato direto do homem
com Deus por meio do Espírito.
Portanto, não há uma ordem de
adoração dogmática e inflexível, antes permitindo à igreja, em todos
os tempos e países, a liberdade de adotar o método que lhe seja
mais adequado, para a expressão de sua vida.
Não obstante, há duas cerimônias que são
essenciais, por serem divinamente ordenadas, a saber, o batismo nas águas
e a Ceia do Senhor.
O batismo nas águas é o rito do ingresso na igreja
cristã, e simboliza o começo da vida espiritual.
A Ceia do Senhor é o rito de comunhão e
significa a continuação da vida espiritual.
O primeiro sugere a fé em Cristo; o segundo
sugere a comunhão com Cristo. O primeiro é administrado somente uma vez,
porque pode haver apenas um começo da vida espiritual; o segundo
é administrado frequentemente, ensinando que a vida espiritual deve
ser alimentada.
As ordenanças são ritos exteriores prescritos por
Cristo com o propósito de ser observados por sua igreja.
Para alguns são mais do que ritos exteriores, são
sacramentos.
A palavra sacramento acrescenta a ideia da comunicação direta da graça ao que participa do rito, isto é, o rito transmite alguma graça ao que o recebe.
O Batismo - Vamos iniciar este tópico falando sobre o batismo. Virtualmente
todas as igrejas cristãs praticam o rito do batismo. Em grande parte, elas o
fazem porque Jesus, em sua comissão final, ordenou aos apóstolos e à igreja:
“Ide [...] fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e
do Filho, e do Espirito Santo” (Mt 28:19).
O significado – Existe uma concordância quase universal de que o batismo se
relaciona de alguma forma com o início da vida cristã; é a iniciação da pessoa
tanto na igreja universal, invisível, como na igreja local, visível.
O batismo significa a identificação ou associação
com uma mensagem, neste caso a mensagem do novo nascimento. O
batismo sugere as seguintes ideias:
1) Salvação. O batismo nas águas é um rito, representando os fundamentos do
Evangelho. A descida do convertido às águas retrata a morte de Cristo
efetuada; a submersão do convertido fala da morte ratificada, ou seja, o
seu sepultamento; o levantamento do converso significa a
conquista sobre a morte, isto é a ressurreição de Cristo.
2) União com Cristo. O fato de que esses atos são efetuados com o próprio
convertido demonstra que ele se identificou espiritualmente com Cristo.
A imersão proclama a seguinte mensagem: “Cristo morreu pelo
pecado para que este homem morresse para o pecado.”
O levantamento do convertido expressa a
seguinte mensagem: “Cristo ressuscitou dentre os mortos a fim de que este
homem pudesse viver uma nova vida de justiça.” União na morte e
ressurreição.
3) Regeneração. A
experiência do novo nascimento tem sido descrita como uma, “lavagem”
(literalmente “banho”, Tito 3:5), porque por meio dela, os pecados e as
contaminações da vida de outrora foram lavados. Assim como o lavar com
água limpa o corpo, assim também Deus, em união com a morte de Cristo e
pelo Espírito Santo, purifica a alma. O batismo nas águas simboliza
essa purificação. “Levanta-te, e lava os teus pecados (isto é,
como sinal do que já se efetuou)” (Atos 22:16).
4) Testemunho. “Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos
revestistes de Cristo” (Gál. 3:27). O batismo nas águas significa que
o convertido, pela fé, “vestiu-se” do caráter de Cristo de modo que os
homens podem ver a Cristo nele, como se vê o uniforme no soldado. Pelo
rito de batismo, o convertido, figurativamente falando, publicamente veste
o uniforme do reino de Cristo.
O batismo é, portanto, uma proclamação poderosa da
verdade do que Cristo fez; é uma “palavra em forma de agua”, testificando da
participação do crente na morte e ressurreição de Cristo. É mais um símbolo que
um mero sinal, pois é um quadro vivo da verdade que transmite.
A fórmula -
“Batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (Mat.
28:19). Como vamos reconciliar isso com o mandamento de Pedro: “…cada um
de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo”? (Atos 2:38). Estas últimas
palavras não representam uma fórmula batismal, porém uma simples
declaração afirmando que recebiam batismo as pessoas que reconheciam
Jesus como Senhor e Cristo.
Por exemplo, o “Didaquê”, um documento cristão
escrito cerca do ano 100 A.D., fala do batismo cristão celebrado em nome
do Senhor Jesus, mas o mesmo documento, quando descreve o rito
detalhadamente, usa a fórmula trinitária. Quando Paulo fala que Israel foi
batizado no Mar Vermelho “em Moisés”, ele não se refere a uma fórmula que se
pronunciasse na ocasião; ele simplesmente quer dizer que, por causa da
passagem milagrosa através do Mar Vermelho, os israelitas aceitaram Moisés como
seu guia e mestre como enviado do céu.
Da mesma maneira, ser batizado em nome de
Jesus significa encomendar-se inteira e eternamente a ele como Salvador
enviado do céu, e a aceitação de sua direção impõe a aceitação da fórmula
dada por Jesus no capítulo 28 de Mateus.
A tradução literal de Atos 2:38 é: “seja batizado
sobre o nome de Jesus Cristo”. Isso significa, segundo o dicionário
de Thayer, que os judeus haviam de “repousar sua esperança
e confiança em sua autoridade messiânica”.
Note-se que fórmula trinitária é descrita duma
experiência. Aqueles que são batizados em nome do triúno Deus, por esse
meio estão testificando que foram submergidos em comunhão espiritual
com a Trindade. Desse modo pode-se dizer acerca deles: “A graça do Senhor
Jesus Cristo e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com vós
todos” (2 Cor. 13:13).
A eficácia – O batismo é um meio de regeneração, sendo essencial para a
salvação?
O batismo nas águas, em si não tem poder
para salvar; as pessoas são batizadas, não para serem salvas, mas
porque já são salvas. Portanto, não podemos dizer que o rito
seja absolutamente essencial para a salvação. Mas podemos insistir
em que seja essencial para a integral obediência a Cristo.
Muitos dizem que o texto de Marcos 16:16
parece sustentar a posição de que o batismo salva ou é essencial para a
salvação. Sob observação mais minuciosa, porém, a capacidade de persuasão desse
conceito torna-se menor.
Em Marcos 16:16 lemos:- “Quem crer e for batizado
será salvo”; note, porém, que a segunda parte do versículo não faz nenhuma
menção ao batismo: “quem, porém, não crer será condenado”. É simplesmente a
falta de fé, não de batismo, que se correlaciona com a condenação.
O batismo é em si um ato de fé e compromisso.
Embora a fé seja possível sem o batismo (pois a salvação não depende do
batismo), o batismo é o desdobramento natural e a complementação da fé.
Tipos de Batismo:
Imersão – O batizando é mergulhado na água.
Aspersão – A água é aspergida
sobre o batizando.
Efusão – A água é derramada
sobre a cabeça do batizando.
Pedobatismo – Batismo
infantil.
A Ceia do Senhor - Enquanto que batismo é o rito de iniciação, a ceia do Senhor é o rito
continuo da igreja visível, ela pode ser definida, em caráter preliminar, como
um rito que Cristo mesmo estabeleceu para que a igreja a praticasse em
comemoração e memória à sua morte.
A ordem - “Porque eu
recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em
que foi traído, tomou o pão, e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto
é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Por
semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este
cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o
beberdes, em memória de mim” (1 Co
11.23-26).
O significado – Um memorial. “Fazei isto em memória de mim”.
Cada vez que um grupo de cristãos se congrega para
celebrar a Ceia do Senhor, estão relembrando, dum modo especial, a morte
expiatória de Cristo que os libertou dos pecados.
Por que recordar a sua morte mais do que outro
evento de sua vida? Porque a sua morte foi o evento culminante de
seu ministério e porque somos salvos, não meramente por sua vida e
seus ensinos, embora sejam divinos, mas por seu sacrifício expiatório.
Além disso, simboliza nossa dependência do Senhor e
nossa ligação vital com ele, também fortalece a unidade dos crentes dentro da
igreja, e aponta para Sua segunda vinda.
Ensino – A Ceia do Senhor é uma lição
objetiva que expõe os dois fundamentos do Evangelho:
1) A
encarnação. Ao participar do pão, ouvimos o apóstolo João dizer:
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14); ouvimos o
próprio Senhor declarar: “Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e
dá vida ao mundo” (João 6:33).
2) A
expiação. Mas as bênçãos incluídas na encarnação nos
são concedidas mediante a morte de Cristo.
O simbolismo do pão partido é que Cristo (o
pão da vida) é morto e sua vida é distribuída entre os espiritualmente
famintos; o vinho derramado nos diz que o sangue de Cristo, o qual é sua vida,
deve ser derramado na morte a fim de que seu poder purificador e
vivificante possa ser outorgado às almas necessitadas.
3) Segurança – Um terceiro aspecto do ensino diz respeito a segurança de nossa
salvação.
Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue”!
(1 Cor. 11:25).
Nos tempos antigos a forma mais solene de aliança
era o pacto de sangue, que era selado ou firmado com
sangue sacrificial.
A aliança feita com Israel no Monto Sinai foi um
pacto de sangue. Depois que Deus expôs as suas condições e o povo
as aceitou, Moisés tomou uma bacia cheia de sangue sacrificial
e aspergiu a metade sobre o altar do sacrifício, significando
esse ato que Deus se havia comprometido a cumprir a sua parte do convênio;
em seguida, ele aspergiu o resto do sangue sobre o povo, comprometendo-o, desse
modo, a guardar também a sua parte do contrato (Êxo. 24:3-8).
A nova aliança firmada por Jesus é um pacto de
sangue. Deus aceitou o sangue de Cristo (Heb); portanto, comprometeu-se, por
causa de Cristo, a perdoar e salvar a todos os que vierem a ele. O sangue
de Cristo é a divina garantia. A nossa parte nesse contrato é crer na morte
expiatória de Cristo. (Rom. 3:25,26.)
Responsabilidade – Quanto a questão da responsabilidade analisaremos dois aspectos
importantes:
Quem deve ser admitido ou excluído da Mesa do
Senhor?
Sendo um relacionamento espiritual entre o crente
como individuo e o Senhor, aqueles que querem ser participantes devem crer
genuinamente em Cristo, embora não se possa fazer nenhuma restrição, o
comungante deve ser maduro o suficiente para ser capaz de discernir o corpo
(1Co 11:29).
Paulo trata da questão dos que são dignos do
memorial em 1 Cor 11:20-34. “Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber este
cálice do Senhor indignamente, será culpado (uma ofensa ou pecado contra) do
corpo e do sangue do Senhor.”
Quer isso dizer que somente aqueles que são dignos
podem chegar-se à Mesa do Senhor? Então, todos nós estamos excluídos! Pois quem
dentre os filhos dos homens é digno da mínima das misericórdias de Deus? Não, o
apóstolo não está falando acerca da indignidade das pessoas, mas da
indignidade das ações.
Sendo assim, por estranho que pareça, é
possível a uma pessoa indigna participar dignamente. E em certo sentido,
somente aqueles que sinceramente sentem a sua indignidade estão aptos para
se aproximar da Mesa; os que se justificam a si mesmos nunca
serão dignos. Outros sim, nota-se que as pessoas mais profundamente
espirituais são as que mais sentem a sua indignidade.
Como pode alguém participar indignamente?
Praticando alguma coisa que nos impeça de claramente apreciar o
significado dos elementos, e de nos aproximarmos em atitude solene,
meditativa e reverente.
No caso dos coríntios o impedimento era sério,
a saber, a embriaguez e a divisão entre eles demonstrada pela falta de amor.
Quem deve ministrar a Ceia do Senhor?
As Escrituras fornecem bem pouca orientação sobre a
questão de quem deve ministrar a ceia do Senhor, o que aparece nos relatos dos
evangelhos e nos relatos de Paulo que a ceia do Senhor foi confiada à igreja, e
pelo que se presume, deve ser ministrada por ela, entendendo que seja justo que
as pessoas escolhidas e empossadas pela igreja para supervisionar e dirigir
seus cultos de louvor também supervisionem a ceia do Senhor.
Elementos da Ceia – Os elementos são pão e suco de uva (vinho).
As considerações quanto aos elementos dependem das
preocupações dos participantes. Por exemplo: se a preocupação principal deles
for a preservação do simbolismo pode-se usar pão levedado e suco de uva.
Se a preocupação for ressaltar a unidade do corpo,
pode-se usar pão inteiro simbolizando a unidade da igreja; o partir do pão
simbolizaria o corpo de Cristo sendo rasgado.
O suco de uva seria suficiente para representar o
sangue de Cristo. Não se aconselha o vinho devido a fraqueza de alguns irmãos
pelo álcool.
Frequência – Ao que parece, no caso da Igreja primitiva, a ceia era realizada
semanalmente (At 20.7). “Todas as vezes” que se reuniam.
O importante é prevenir intervalos longos entre os
períodos de reflexão sobre as verdades transmitidas por ela, mas não com tanta
frequência que a torne tão trivial ou comum que nos submetamos ao processo sem
de fato pensar no seu significado.
Tipos de entendimentos sobre a Ceia:
Transubstanciação (ponto de
vista católico) – Os elementos transformam-se no corpo e sangue de Cristo.
Consubstanciação (ponto de vista luterano) – O corpo e o sangue de Cristo estão
presentes, misturados aos elementos.
Presença Espiritual (ponto de
vista calvinista) – Cristo se faz presente.
Ordenança - (ponto de vista batista) – Apenas um memorial não possui nenhum poder
místico, nem atribui graça alguma.
A ceia do Senhor, ministrada de modo adequado, é um
canal para inspirar a fé e o amor do crente, à medida que ele volta a refletir
sobre a maravilha da morte do Senhor e sobre o fato de que os que creem nele
terão vida eterna.
Formas de Governo da Igreja
Iremos agora discutir o tipo de estruturas
organizacionais usadas pelas diversas igrejas existentes.
Na realidade, os defensores das várias formas do
governo da igreja concordam que Deus é (ou possui) a autoridade final. Os
pontos em que diferem estão em suas concepções de como ou por meio de quem ele
expressa ou exerce essa autoridade.
É evidente que o propósito do Senhor era que
houvesse uma sociedade de seus seguidores que comunicasse seu Evangelho
aos homens e o representasse no mundo.
Mas Ele
não moldou nenhuma organização ou plano de governo; não estabeleceu
nenhuma regra detalhada de fé e prática.
Assim como o corpo vivo se adapta ao
meio ambiente, semelhantemente, ao corpo vivo de Cristo foi
dada liberdade para escolher suas próprias formas de
organização, segundo suas necessidades e circunstâncias.
Naturalmente, a igreja não era livre para
seguir nenhuma manifestação contrária aos ensinos de Cristo ou à doutrina
apostólica. Qualquer manifestação contrária aos princípios das Escrituras
é corrupção.
Durante os dias que se seguiram ao Pentecoste, os
crentes praticamente não tinham nenhuma organização, e por algum tempo faziam
os cultos em suas casas e observavam as horas de oração no templo. (Atos 2:46.)
Isso foi completado pelo ensino e comunhão apostólicos.
Ao crescer numericamente a igreja, a organização
originou-se das seguintes causas:
Primeira, oficiais da igreja foram escolhidos para resolver as emergências
que surgiam, como, por exemplo, em Atos 6:1-5;
Segunda, a possessão de dons espirituais separava certos indivíduos para a
obra do ministério.
As primeiras igrejas eram
democráticas em seu governo, circunstância
natural em uma comunidade onde o dom do Espírito Santo estava disponível a
todos, e onde toda e qualquer pessoa podia ser dotada de dons para um
ministério especial.
É verdade que os apóstolos e anciãos presidiam
às reuniões de negócios e à seleção dos oficiais; mas tudo se fez em cooperação
com a igreja, não existia uma hierarquia estabelecida. Alguns textos que
confirmam essa verdade são Atos 6:3-6; 15:22; 1Cor. 16:3; 2Cor. 8:19; Fil.
2:25.
Pelo que se lê em Atos 14:23 e Tito 1:5, poderá
entender-se que Paulo e Barnabé nomearam anciãos sem consultar a igreja;
mas historiadores eclesiásticos de responsabilidade afirmam que eles
os ”nomearam” da maneira usual, pelo voto dos membros da igreja.
Vemos claramente que no Novo Testamento não há
apoio para uma fusão das igrejas em uma “máquina eclesiástica” governada
por uma hierarquia. Nos dias
primitivos não havia nenhum governo centralizado abrangendo toda a igreja. Cada
igreja local era autônoma e administrava seus próprios negócios com
liberdade. Naturalmente os ”Doze Apóstolos” eram muito respeitados por
causa de suas relações com Cristo, e exerciam certa autoridade (Vide Atos 15.).
Paulo exercia certa supervisão sobre as igrejas
gentílicas; entretanto, essa autoridade era puramente espiritual, e não
uma autoridade oficial tal como se outorga numa organização. Embora que
cada igreja fosse independente da outra, quanto à jurisdição, as igrejas do
Novo Testamento mantinham relações cooperativas umas com as outras. (Rom. 15:26,
27; 2Cor. 8:19; Gál. 2:10; Rom. 15:1; 3João 8.)
Nos séculos primitivos as igrejas locais, embora
nunca lhes faltasse o sentimento de pertencerem a um só corpo, eram comunidades
independentes e com governo próprio, que mantinham relações umas com as outras,
não por uma organização política que as reunisse todas elas, mas por
uma comunhão fraternal mediante visitas de delegados, intercâmbio
de cartas, e alguma assistência recíproca indefinida na escolha
e consagração de pastores.
Vários tipos de governo foram estabelecidos ao
longo da história eclesiástica. Nosso estudo começara com o mais estruturado –
o episcopal – prosseguindo rumo ao menos estruturado.
Governo Episcopal - Na forma episcopal de governo da igreja, a autoridade reside no bispo.
Há vários graus de episcopado, ou seja, há
variações quanto ao número de níveis de bispos.
A forma mais simples de governo episcopal é
encontrada na Igreja Metodista, que só possui um nível de bispos.
Um pouco mais desenvolvida é a estrutura governamental
da Igreja Anglicana ou Episcopal.
A Igreja Católica Romana possui o sistema mais
completo de hierarquia, com a autoridade investida especialmente no sumo
pontífice, o bispo de Roma, o papa.
Inerente à estrutura episcopal é a ideia de
diferentes níveis de ministério ou diferentes graus de ordenação. O primeiro
nível é o ministro ou do sacerdote comum. Em algumas igrejas, há passos ou
divisões dentro desse primeiro nível, por exemplo, diácono e presbítero.
Os clérigos nesse nível são autorizados a
desempenhar todas as tarefas básicas associadas ao ministério, ou seja, pregam
e ministram os sacramentos. Além desse nível, porém, há um segundo nível de
ordenação que constitui uma pessoa bispo. O papel dos bispos é exercer o poder
de Deus de que foram investidos.
Em particular, como representantes de Deus e
pastores, governam um grupo de igrejas e cuidam dele, em vez de simplesmente
cuidar de uma congregação local. Entre seus poderes está a de ordenar ministros
ou sacerdotes.
Governo Nacional – Este sistema, também denominado sistema colegial (que superou o sistema
territorial), foi desenvolvido na Alemanha, principalmente por C. M. Pfaff
(1686-1780), e mais tarde foi introduzido na Holanda.
Ele parte do pressuposto de que a igreja é uma
associação voluntária, igual ao estado. As igrejas ou congregações separadas
são meras subdivisões da igreja nacional única.
O poder original reside numa organização nacional,
e esta organização tem jurisdição sobre as igrejas locais. Este sistema é
justamente o inverso do sistema presbiteriano, segundo o qual o poder original
tem sua sede no conselho ou consistório.
O sistema territorial reconhecia o direito inerente ao
estado de reformar o culto público, resolver contendas sobre doutrina e
conduta, e convocar sínodos, ao passo que o sistema colegial atribui ao estado
unicamente o direito de supervisão como direito inerente, e considera
todos os outros direitos, que o estado poderia exercer em questões da igreja,
como direitos que a igreja, por um entendimento tácito ou por um pacto formal,
conferiria ao estado.
Este sistema desconsidera completamente a autonomia
das igrejas locais, ignora os princípios de governo e de direta
responsabilidade para com Cristo, gera formalismo e confina uma igreja
professadamente espiritual dentro dos limites e geográficos.
Um sistema como este, semelhante que é ao sistema
erastiano, naturalmente se adapta melhor à ideia atual do estado totalitário.
Governo Presbiteriano (Governo Federal) - O sistema presbiteriano de governo da igreja também coloca a
autoridade em determinado oficio.
Neste sistema o ofício individual e o detentor do
ofício destacam-se menos que os grupos representativos que exercem tal
autoridade.
O oficial principal na estrutura presbiteriana é o
presbítero, posição que remonta à sinagoga judaica. Os presbíteros também são
encontrados na igreja do Novo Testamento.
Em Atos 11:30 lemos sobre a presença dos
presbíteros na congregação de Jerusalém, enviando suas ofertas aos presbíteros
pelas mãos de Barnabé e Saulo”. As epístolas pastorais também mencionam os
presbíteros.
Parece que na época do Novo Testamento as pessoas
escolhiam seus presbíteros, indivíduos a quem consideram particularmente
qualificados para dirigir a igreja. Ao selecionar presbíteros para dirigir a
igreja, as pessoas tinham consciência de que se conformavam, pelo ato externo,
com a escolha que o Senhor já fizera.
No sistema presbiteriano, entende-se que a
autoridade de Cristo é dispensada a indivíduos crentes, que a delegam aos
presbíteros por eles escolhidos e aos que passam a representa-los dali em
diante.
Uma vez eleitos ou designados, os presbíteros atuam
em favor ou no lugar dos indivíduos crentes. É, portanto, através dos
presbíteros que a autoridade divina de fato atua dentro da igreja.
Essa autoridade é exercida numa série de concílios.
No âmbito da igreja local, o conselho
(presbiteriana) ou o consistório (reformada) é o grupo responsável pelas
decisões.
Todas as igrejas de uma área são governadas pelo
presbitério (presbiteriana) ou classe (reformada).
O grupo seguinte é o sínodo, formado por igual
número de presbíteros leigos e clérigos escolhidos pelos presbitérios ou
classes.
No nível mais alto, a Igreja Presbiteriana também
possui uma assembleia geral, chamada Supremo Concílio, composta mais uma vez de
representantes leigos e clérigos dentre os presbíteros.
As prerrogativas de cada um desses concílios são
descritas na constituição da denominação.
O sistema presbiteriano difere do episcopal no fato
de existir só um nível de clero. Só existe o presbítero docente (o pastor) ou o
presbítero regente. Não existem níveis mais altos, como o de bispo. É claro que
certas pessoas são eleitas para cargos administrativos dentro dos concílios.
Elas são selecionadas (de baixo) para presidir ou supervisionar, executando
funções especificas. Não são bispos, não havendo ordenações especiais para tais
funções. Não existe autoridade especial inerente ao oficio.
Outra medida de nivelamento no sistema
presbiteriano é uma coordenação deliberada entre clérigos e leigos. Ambos os
grupos são incluídos em todos os concílios. Ninguém possui poderes ou direitos
especiais que o outro não possua.
Congregacional - A terceira forma de governo da igreja destaca o papel do cristão como
indivíduo e tem a igreja local como centro de autoridade.
Dois conceitos são básicos ao sistema
congregacional: autonomia e democracia.
Por autonomia entendemos que a congregação é
independente e governa a si mesma. Não há poderes externos que possam ditar
diretrizes para a igreja local.
Por democracia entendemos que cada membro da
congregação local tem voz em seus assuntos. São os indivíduos da congregação
que possuem e exercem a autoridade. A autoridade não é prerrogativa de um único
individuo ou de um grupo seleto.
Entre as principais denominações que praticam a
forma de governo congregacional estão os grupos batistas, congregacionais e boa
parte dos grupos luteranos.
Seguindo um princípio de autonomia, cada igreja
local chama seu próprio pastor e determina seu próprio orçamento. Ela adquire e
gere propriedades independentemente de quaisquer autoridades externas.
O princípio da democracia baseia-se no sacerdócio
de todos os crentes que, segundo entendem, ficaria prejudicado, caso bispos ou
presbíteros recebessem a prerrogativa de tomar as decisões.
A obra de Cristo torna tais dirigentes
desnecessários, pois agora cada crente tem acesso ao Santo dos Santos e pode
ter acesso direto a Deus. Além disso, como Paulo nos relembra, cada membro ou
parte do corpo pode fazer uma contribuição valiosa para o bem-estar do todo.
Há decerto, alguns elementos de democracia
representativa dentro da forma congregacional de governo da igreja. Certas
pessoas são eleitas por livre escolha dos membros do corpo para servir de
maneiras especiais. Todas as decisões mais importantes, porém, tais como a
contratação de um pastor e a compra ou venda de propriedades, são tomadas pela
igreja como um todo.
Sua Organização (Hb 13.7,
17)
Os Oficiais da Igreja - Podemos
distinguir diferentes classes de oficiais na Igreja. Uma distinção muito geral
é de oficiais ordinários e extraordinários
Oficiais Extra-ordinários - O ministério geral e profético
Apóstolos – Estritamente falando,
este nome só é aplicável aos doze escolhidos por Jesus e a Paulo; mas também se
aplica a certos homens apostólicos que assessoram a Paulo em seu trabalho e que
foram dotados de dons graças apostólicas, At 14:4 e 14, 1 Co 9:5-6, 2 Co 8:23.
Os apóstolos tinham a incumbência especial de
lançar os alicerces da Igreja de todos os séculos.
Somente por meio da sua palavra é que os crentes de
todas as eras subsequentes têm comunhão com Jesus Cristo, assim sendo, eles são
os apóstolos da Igreja dos dias atuais, como também o foram da Igreja
Primitiva, eles tinham certas qualificações especiais como:
Foram comissionados diretamente por Deus ou por
Jesus Cristo (Mc 3:14, Lc 6:13, Gl 1:1).
Eram testemunhas da vida de Cristo principalmente,
de Sua ressurreição (Jo 15:27, At 1:21-22, 1Co 9:1).
Estavam cônscios de serem inspirados pelo Espirito
de Deus em todo o seu ensino, oral e escrito (At 15:28, 1Co 2:13).
Cujo trabalho principal
era estabelecer igrejas em campos novos. (2Cor. 10:16.)
Eram administradores da
igreja e organizadores missionários, chamados por Cristo e cheios do
Espírito.
A palavra “apóstolo” significa simplesmente
“enviado” ou “missionário”. (Atos 14:14; Rom. 16:7.)
Tem havido apóstolos desde então? A relação dos
doze para com Cristo foi uma relação única que ninguém desde então pôde
ocupar. Sem dúvida, a obra de homens tais como João Wesley, com toda
razão, pode ser considerada como apostólica e muitos outros tem realizado
esta obra, entretanto não possuem a mesma autoridade que os primeiros
apóstolos.
Profetas – O Novo Testamento
também fala sobre os profetas (At 11:28, At 13:1-2, At 15:32). Evidentemente o
dom de falar para a edificação da Igreja era altamente desenvolvido nestes
profetas, e ocasionalmente eles serviam de instrumentos para a revelação de
mistérios e para a predição de eventos futuros.
Eram os dotados do dom de expressão inspirada.
Desde os primeiros dias até ao fim do século constantemente apareceram, nas
igrejas cristãs profetas e profetisas.
Enquanto o apóstolo e o evangelista levavam
sua mensagem aos incrédulos, o ministério do profeta, era particularmente entre
os cristãos.
Os profetas viajavam de igreja em igreja, tanto
como os evangelistas o fazem na atualidade; não obstante, cada
igreja tinha profetas que eram membros ativos dela. Entretanto suas
palavras deviam ser provadas pelas escrituras.
Evangelistas – Em acréscimo a
apóstolos e profetas, são mencionados evangelistas na Bíblia (At 21:8, Ef 4:1,
2Tm 4:5). Filipe, Marcos, Timóteo e Tito pertenciam a esta classe.
Pouco se sabe destes evangelistas, eles
acompanhavam e assistiam os apóstolos, e às vezes eram enviados por estes em missões
especiais, seu trabalho era pregar e batizar, mas incluía também a ordenação de
presbíteros (Tt 1:5, 1 Tm 5:22), o exercício da disciplina (Tt 3:10).
Oficiais Ordinários - O
ministério local e prático
Pastor – O líder da igreja.
Qualificações (1 Tm 3.1-6; Tt 1.7-9).
Este termo não aparece diretamente no Novo
Testamento. Mas o titulo é aplicado a Jesus Cristo, pois Ele é o Bom Pastor (Jo
10:11-14), grande Pastor (Hb 13:20), Pastor e Bispo (1Pd 2:25), já no Antigo
Testamento os lideres do povo eram chamados pastores (Jr 3:15, Jr 23:4, Ez
34:23), entre os evangélicos, tem havido uma predileção pelo titulo pastor para
o líder espiritual da igreja. Por que a preferencia desse nome?
Alguns fatores podem ser apontados para explicar a
preferência do nome pastor:
O fato de a igreja ser chamada de rebanho.
A função de apascentar dos pastores, presbíteros e
bispos.
Cristo se apresenta como Pastor.
A ideia de pastores do povo de Deus no Antigo
Testamento.
E o mais importante é o chamado para a obra e
missão de homens e hoje até mulheres de exercerem este ministério que é tão
importante, pois é a maneira de Deus agir e ouvir o seu povo através de seus
pastores.
Alguns nomes que designam o pastor bíblico.
Pastor (poimen – poimen) - A palavra pastor é usada para designar àquele que é responsável pela igreja institucional
e espiritual. Este termo por si só já designa diversos deveres baseado na
figura do pastor como: cuidar, proteger, conhecer, alimentar, guiar e
sacrificar-se pelo rebanho.
Bispos (επίσκοπος – episkopos) - Atos 20.17, 28; Tito 1.7;
Filemon 1.1
A palavra bispo no grego
significa “supervisores”, na bíblia também são chamados de presbíteros. O
título bispo era um termo secular dado aos homens responsáveis pela
administração ou supervisão de uma cidade.
Os presbíteros em Atos 20.28
recebem a orientação de Paulo para supervisionarem a igreja, isto é,
pastorearem a igreja.
Presbíteros (πρεσβυτερος
– presbyteros) – At 20.17; I Tm 5.17-18; 1 Pe 5.1-4
O termo presbítero significa “ancião”. Nas
sinagogas era comum que o “ancião” fosse o supervisor da sinagoga. Normalmente
por este possuir maior experiência e conhecimento adquirido com o passar dos
anos. Os presbíteros são designados nos textos acima a supervisionarem a igreja
e a pastorear o rebanho de Deus.
Podemos afirmar que na visão bíblica presbítero =
bispo = pastor.
Mestres – É
evidente que, originalmente, os presbíteros não eram mestres, ai vem a
declaração de Paulo em Ef 4:11, de que o Cristo elevado ao céu também dera à
Igreja “pastores e mestres”, mencionados como uma única classe, mostra
claramente que estes dois não constituem duas diferentes classes oficiais.
Nisso com o transcorrer do tempo, duas
circunstancias levaram a uma distinção entre os presbíteros ou superintendentes
encarregados somente do governo da Igreja, e os que também eram chamados para
ensinar.
Quando os apóstolos faleceram e as heresias surgiam
e aumentavam, a tarefa dos que eram chamados para ensinar tornou-se mais
exigente, requerendo preparação especial (2Tm 2:2, Tt 1:9).
Em vista do fato de que o trabalhador é digno do
seu salário, os que estão engajados no ministério da Palavra, tarefa amplamente
abrangente que requer todo o seu tempo, foram liberados doutros trabalhos para
poderem devotar-se mais exclusivamente ao trabalho de ensinar.
Diáconos – Significa: servo, criado, assistente, auxiliar.
Qualificações (1 Tm 3.8-10,12,13). Os diáconos
eram auxiliares dos presbíteros (At 6.1-6) e um grupo oficialmente reconhecido
na igreja (Fp 1.1).
Segundo a opinião predominante, At 6:1-6 contém o
registro da instituição do diaconato. O nome diakonai que, antes do evento
narrado em Atos 6, era sempre empregado no sentido geral de servo ou servidor,
subsequentemente começou a ser empregado como designativo daqueles que se
dedicavam às obras de misericórdia e caridade, e, com o tempo, veio a ser usado
exclusivamente neste sentido.
Seu Propósito
A Missão - Se
o reinar de Deus é importante para o estudo da eclesiologia, a “missão” é
essencial para a aplicação do reino.
O reinar de Deus implica em deixar que Deus cumpra
a Sua missão entre aqueles que pertencem ao reino. É a aceitação das
responsabilidades da missão que introduzem o indivíduo ao reinar de Deus.
Existe um duplo enfoque da missão em seu
relacionamento com o reinar de Deus: a missão tem aspecto interior—a aplicação
pessoal do ensino e da vida do reinar de Deus; e o seu aspecto exterior—o levar
a mensagem do reinar de Deus aos demais.
O aspecto interior da missão da igreja visa a
preparar os integrantes para a sua missão externa. Esta preparação é ativa,
como se pode ver no modelo de Jesus, enviando os seus discípulos em mais de uma
instância para cumprir com exigências da missão exterior.
Vale lembrar que os discípulos eram indivíduos
menos do que qualificados, especialmente ao ver que, mesmo depois da
crucificação de Jesus, relutavam em aceitar que era necessário que Jesus
morresse.
Em pleno processo de discipulado, porém, mesmo com
todas as suas falhas, Jesus os enviou mais de uma vez para levar adiante a sua
mensagem do reinar de Deus.
Mesmo o gadareno endemonhinhado é enviado para
pregar em toda a região de Decápolis (uma região de dez cidades) sem capacitação
especial.
Olhando para o lado exterior da missão da igreja,
Moody coloca que a missão pode ser resumida em três aspectos especiais: “comomartyria (testemunho), diakonia (serviço)
e koinonia (comunhão)”.
São estas as tarefas que servem de base para compreender
e cumprir a missão da igreja. Deve-se lembrar de fazer distinção entre
os termos “missão” e “missões”. Por “missão”, trata-se da raison
d’etre da igreja, seu propósito no mundo.
Missão é um termo de importância suprema para a
eclesiologia. Como fora observado, “não é a igreja que tem uma missão, mas é o
inverso: a missão de Cristo criou a igreja. Não é a missão da igreja que se
deve entender, mas o inverso”. Mais do que deixar uma igreja, Jesus deixou uma
tarefa a ser cumprida por seus discípulos. Esta missão gera estruturas para que
ela possa ser levada adiante. Sem missão, a igreja não existe.
A missão é o propósito de efetivar o reinar de Deus
dentro dos parâmetros da história. Mesmo
que o conceito de “missões” esteja ligado intimamente à missão da igreja, o
conceito é distinto. Missões tem a ver com os meios usados para levar
adiante a missão externa da igreja entre todos os povos.
A missão da igreja inclui também aspectos do
amadurecimento e discipulado do indivíduo e da igreja local como um corpo.
Mesmo que a tarefa missionária seja de “discipular as nações”, o
conceito “missões” reflete sempre a questão do envio de obreiros.
A missão da igreja, por outro lado, é mais global
já que inclui a obra missionária como um aspecto do propósito eclesiástico. A
missão não requer por si a questão do envio, mas do cumprir com o propósito de
discipular.
Voltando à colocação de Moody dos três aspectos da
missão, a questão do testemunho rege o enfoque central da aplicação. “O
testemunho é a missão central da igreja em todas as situações”. Este testemunho
inclui o testemunho referente à pessoa e obra de Cristo, como também os demais
aspectos da aplicação da mensagem de Cristo no âmbito completo do Seu
ministério.
Este testemunho é logo aplicado em parte através do
serviço cristão como também no contexto da comunhão cristã. O enfoque triplo da
missão é unificado em torno do primeiro aspecto de oferecer testemunho a
Cristo, incluindo nesta definição todo o processo de discipular o ouvinte.
A missão da igreja deve ser estudada a sério, pois
é o direcionador para cada aspecto da vida eclesiástica. As palavras de Jesus
registradas em Mateus 28 e Atos 1 requerem que a igreja cumpra com a tarefa de
discipular.
Esta é a missão: ser testemunha de Cristo,
discipulando todas as nações.
O papel de testemunha no contexto de Atos 1.8 tem a
mesma força do conceito de fazer discípulos em Mateus 28.
De fato, são dois relatos das mesmas palavras de
Jesus, numa mesma ocasião. O testemunho e discipulado especificados abrangem
todo o ensino de Jesus em toda expansão étnica e geográfica. A missão da igreja
deve reger todo o esforço, direcionando toda a atividade e estrutura para que
ajude a cumprir com o propósito da igreja.
O propósito maior da Igreja é Glorificar a Deus. De maneira prática glorificamos a Deus quando o obedecemos e
honramos Seu nome. A igreja O glorifica quando:
Evangeliza (Prega a salvação) - O tópico que se relata nos dois relatos sobre as últimas palavras de
Jesus aos discípulos é a evangelização.
Em Mateus 28:19 ele o instrui: “Ide, portanto,
fazei discípulos de todas as nações”.
Em Atos 1:8 ele diz: “Mas recebereis poder, ao
descer sobre vós o Espirito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em
Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra”. Esse foi
o último assunto que Jesus tratou com seus discípulos. Parece que ele via a
evangelização como a própria razão da existência deles.
O chamado para evangelização é uma ordem. Tendo
aceitado Jesus como Senhor, os discípulos haviam se colocado sob seu governo e
estavam obrigados a fazer tudo o que ele lhes pedisse, pois ele disse: “Se me
amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15).
Se os discípulos realmente amassem o Senhor,
cumpririam esse chamado para a evangelização. Não se tratava de uma questão
opcional para eles.
Mas os discípulos não foram enviados simplesmente
em seu próprio poder. Jesus prefaciou sua comissão com a afirmação: “Toda a
autoridade me foi dada no céu e na terra”(Mt 28:18). Tendo toda a autoridade,
ele comissionou os discípulos como seus agentes. Assim, eles tinham o direito
de ir e evangelizar todas as nações. Além disso, Jesus prometeu aos discípulos
que o Espirito Santo viria sobre eles e também a capacitação para a tarefa a
ser exercida.
Portanto para a Igreja ser fiel ao seu Senhor e lhe
alegrar o coração, deve se esforçar para levar o evangelho a todas as pessoas.
Isso implica ir a pessoas de quem gostamos e a pessoas de quem, por natureza,
talvez tenhamos a tendência de não gostar. Isso se estende a pessoas que são
diferentes de nós. E vai além de nosso círculo imediato de contato e
influencia. Num sentido mais definido evangelização local, expansão ou fundação
de igrejas e missões mundiais são a mesma coisa.
Produz cristãos maduros e santos (ensino, comunhão,
etc.) - Uma das ordens de Jesus na Grande Comissão
foi de ensinar os convertidos a “guardar todas as coisas que vos tenho
ordenado” (Mt 28:20). Com esse intuito, um dos dons para as igrejas é “pastores
e mestres” (Ef 4:11) visando preparar e equipar o povo de Deus para o serviço.
A educação pode assumir várias formas e ocorrer em
muitos níveis. É dever da igreja utilizar todos os meios e tecnologias
legitimas hoje disponíveis. A pregação é um meio de instrução que vem sendo
usado pela igreja cristã desde o princípio.
Cuida das necessidades de seus membros em primeiro
lugar (1 Tm 5) e pratica o bem aos de fora (Mt 5.16) - Atravessando as várias funções da igreja até aqui examinadas,
existe a responsabilidade de praticar atos de amor e compaixão cristã tanto para
crentes como para descrentes.
É claro que Jesus se importava com os problemas dos
necessitados e dos sofredores. Ele curou os doentes e por vezes até ressuscitou
mortos. Se a igreja for dar continuidade ao ministério dele, estará engajada em
alguma forma de ministério aos necessitados e sofredores. Que Jesus esperava
isso dos crentes evidencia-se na parábola do bom samaritano (Lc 10:25-37).
Jesus contou essa parábola para o interprete da lei
que, compreendendo que a pessoa pode herdar a vida eterna amando a Deus de todo
o coração e ao próximo como a si mesmo, perguntou quem era o próximo. Ao
responder a pergunta, Jesus também explicou o que significa amar o próximo como
a si mesmo. Na mesma linha, Jesus insinua em Mateus 25:31-46 que o sinal pelo
qual os verdadeiros crentes podem ser distinguidos dos que fazem confissões
vazias são os atos de amor feitos em nome de Jesus, seguindo seu exemplo.
A ênfase na preocupação social transporta-se também
para as epístolas. Tiago é especialmente vigoroso ao salientar o cristianismo
pratico. Considere por exemplo, sua definição de religião: “A religião pura e
sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas
nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tg 1:27).
Ele denuncia o incentivo verbal desacompanhado de ação: “Se um irmão ou irmã
estiver necessitado de roupas e do alimento de cada dia e um de vocês lhe
disser: ‘Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até ficar satisfeito’, sem porém
lhe dar nada, deque adianta isso? Assim também a fé, por si só, se não for
acompanhada de obras, está morta” (Tg 2:15-17).
Igreja deve mostrar interesse e atuar sempre que vê
necessidades, sofrimentos ou erros, obviamente que as igrejas têm muito o que
fazer para melhorarem os seus desempenhos nessa área.
Reflexão: A igreja local
deve também refletir a perspectiva descentralizadora do Evangelho de Cristo.
Isso implica evangelização e missões. O Corpo de Cristo é a entidade espiritual
que opera no mundo.
A igreja local não tem como missão criar programas
diversos para que os cristãos não tenham tempo para pecar ou pensar em outras
coisas. A igreja não tem como meta centralizar o Evangelho dentro das quatro
paredes e algumas poucas pessoas.
Descentralizar implica que devemos incentivar os
membros para que tenham um bom tempo com suas esposas, filhos, pais e parentes.
Devemos ajudar o cristão a pensar sobre como ele pode alcançar seus conhecidos
com o evangelho, ou abrir suas casas para outros, dando um testemunho cristão.
A visão descentralizadora quer dizer que a igreja
local se esforça para equipar os santos para que eles sejam sal e luz nos seus
lugares.
Entende-se que a igreja é uma comunidade para
apoiar, não uma fortaleza para retirar o cristão do mundo. Ela existe como meio
para aperfeiçoar o cristão e não como um fim em si mesmo.
A IGREJA UNIVERSAL
Há uma certa tensão a ser mantida aqui entre a
igreja em sentido local e universal, pois a igreja local é a expressão corpórea
da igreja única em uma localidade específica. É a expressão da igreja única
onde quer que ela seja encontrada.
A igreja local é expressão do todo — a igreja
universal — e ao mesmo tempo uma expressão parcial.
A igreja é um organismo vivo, a acoplação
(ajuntamento) dos santos, o povo de Deus na face da terra. Nem todo membro da
igreja local faz parte, e nem todo aquele que não faz parte de uma igreja local
visível está fora da igreja.
A igreja universal também é composta de todos
cristãos de todos os tempos, isto é, de todos aqueles que professaram sua fé no
Messias Jesus, o Cristo.
A Realidade de Sua Existência (Mt 16.18; Cl 1.18; Ef 3.10)
Sua Fundação
Consideração profética – Israel é
descrito como uma igreja no sentido de ser uma nação chamada dentre as outras
nações a ser um povo de servos de Deus. (Atos 7:38.) Quando o Antigo Testamento
foi traduzido para o grego, a palavra “congregação” (de Israel) foi traduzida
“ekklesia” ou “igreja”. Israel, pois, era a congregação ou a igreja de
Jeová. Depois de a igreja judaica o ter rejeitado, Cristo predisse a fundação
duma nova congregação ou igreja, uma instituição divina que continuaria
sua obra na terra (Mat. 16:18). Essa é a igreja de Cristo, que veio a ter
existência no dia de Pentecoste.
Consideração Histórica – A igreja
de Cristo veio a existir, como igreja, no dia de Pentecoste, quando foi
derramado o Espírito Santo sobre os fiéis.
Assim como o Tabernáculo foi construído e depois
consagrado pela descida da glória divina (Êxo. 40:34), assim os primeiros
membros da igreja foram congregados no cenáculo e consagrados como igreja pela
descida do Espírito Santo.
É muito provável que os cristãos primitivos
vissem nesse evento o retorno da “Shekinah” (a glória manifesta no Tabernáculo
e no templo) que, havia muito, partira do templo, e cuja ausência era
lamentada por alguns dos rabinos. Davi juntou os materiais para a construção do
templo, mas a construção foi feita por seu sucessor, Salomão.
Da mesma maneira, Jesus, durante seu
ministério terreno, havia juntado os materiais da sua igreja, por assim
dizer, mas o edifício foi erigido por seu sucessor, o Espírito Santo.
Realmente, essa obra foi feita pelo Espírito, operando mediante os
apóstolos que lançaram os fundamentos e edificaram a igreja por sua pregação,
ensino e organização. Portanto, a igreja é descrita como sendo ”edificados
sobre o fundamento dos apóstolos…” (Efés. 2:20).
Cristo – Foi seu fundador no sentido
de ter sido seu mestre, construtor e aquele que enviou o Espírito, o qual deu
forma real ao corpo de Cristo.
Seu Fundamento
Cristo – (Mt 16.18; 1 Pe 2.4-8). Ele é a Pedra
angular e todo cristão é uma pedra sobre a grande pedra angular.
Os membros da Igreja – O
Novo Testamento estabelece as seguintes condições para os membros da
igreja:
Fé implícita no Evangelho, confiança sincera e
de coração em Cristo como o único e divino Salvador (Atos 16:31)
Apenas esperavam que tivessem sido regenerados pelo
Espírito Santo.
No princípio, praticamente todos os membros da
igreja eram verdadeiramente regenerados. “E todos os dias acrescentava o
Senhor à igreja aqueles que iam sendo salvos” (Atos 2:47).
Entrar na igreja não era uma questão de
unir-se a uma organização, mas de tornar-se membro de Cristo, assim como o ramo
é enxertado na árvore.
As marcas visíveis de uma pessoa regenerada eram:
Submeter-se ao batismo nas águas como testemunho
simbólico da fé em Cristo.
Confessar verbalmente essa fé. (Rom.10:9,10).
No transcurso do tempo, entretanto, conforme a
igreja aumentou em número e em popularidade, o batismo nas águas e
a catequese tomaram o lugar da conversão.
O resultado foi um influxo na igreja de grande
número de pessoas que não eram cristãs de coração. E desde então, essa tem
sido mais ou menos a condição da cristandade.
Assim como nos tempos do Antigo Testamento
havia um Israel dentro de Israel, israelitas de verdade, bem como
israelitas nominais, assim também no transcurso da história da igreja
vemos uma igreja, dentro da igreja, cristãos verdadeiros no meio de
cristãos apenas de nome.
Portanto, devemos distinguir entre a igreja
invisível, composta dos verdadeiros cristãos de todas as denominações, e a
igreja visível, constituída de todos os que professam ser cristãos — a
primeira, composta daqueles cujos nomes estão escritos no céu; a segunda,
compreendendo aqueles cujos nomes estão registrados no rol de membros das
igrejas.
Suas Representações
Algo da natureza da igreja é espelhado nas
seguintes figuras: povo de Deus, corpo de Cristo, noiva de Cristo, esposa de
Deus, templo do Espírito do Santo, santos, povo eleito, filhos de Deus, ramos
da videira, galhos da oliva, lavoura, horta, edifício, sacerdócio, nação santa,
luzeiro, coluna e baluarte da verdade, lavradores da vinha, integrantes do
reino de Deus e amigos de Jesus.
Estas descrições e metáforas são usadas de formas
diferentes, espelhando certos aspectos da natureza, do ideal, ou da dura
realidade no quotidiano da igreja.
Estudaremos algumas dessas figuras.
Povo de Deus – Uma das primeiras
descrições ou metáforas aplicadas à igreja é a de povo de Deus.
Com o uso desta frase, a
perspectiva é de focalizar no relacionamento de dependência de Deus dentro
dos limites da aliança estabelecida.
Êxodo 19 assenta os elementos essenciais desta
aliança e da designação de ser povo peculiar a YHWH. Nestes mesmos
termos encerra-se também as figuras de sacerdócio real, nação santa, povo
adquirido, povo eleito e em parte referências à participação no reino de Deus.
No Antigo Testamento, o
conceito de igreja é traçado em termos da nação como um todo ou de um
remanescente, porém há modificações de tal ideia no Novo Testamento, partindo
do desenvolvimento das referências a um remanescente fiel. É na base do
conceito de Israel como o povo de Deus que o Novo Testamento desenvolve o seu
ensino do povo de Deus em Cristo.
O templo do Espirito Santo – É o
Espírito que fez surgir a igreja.
Essa obra impressionante do Espirito ocorreu no
Pentecostes, em que ele batizou os discípulos e converteu três mil, fazendo
nascer a igreja. E o Espírito continua trazendo pessoas para a igreja: “Pois,
em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer
gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só
Espírito” (1Co 12:13).
A igreja é agora habitada pelo Espirito, tanto no
aspecto individual como no coletivo. Paulo escreve aos coríntios: “Não sabeis
que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém
destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que
sois vós, é sagrado” (1Co 3:16-17). Em outra passagem ele descreve os crentes
como “santuário dedicado ao Senhor [...] para habitação de Deus no Espirito”
(Ef 2:21-22).
Habitando na igreja, o Espírito Santo partilha com
ela sua vida. Aquelas qualidades próprias de sua natureza e referidas como
“fruto do Espírito”, serão encontradas na igreja: amor, alegria, paz,
longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio (Gl
5:22-23). A presença de tais qualidades são indicações da atividade do Espirito
Santo e, portanto, em certo sentido da genuinidade da Igreja.
É o Espírito Santo que transmite o poder para a
igreja, como Jesus indicou em Atos 1:8. Por causa da vinda iminente do Espirito
com poder, Jesus pôde dar aos discípulos a promessa incrível de que fariam
obras maiores que as dele (Jo 14:12), sendo o Espírito o realizador do que é
necessário para convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:7).
O cabeça e o corpo (1 Co 12) -
Estas designações como corpo e membros de Cristo, refletem a igreja como a presença visível e ativa de Deus na terra,
reflete a missão a ser desempenhada pela igreja.
A missão de estender o ministério de Cristo
espelha-se nos termos como ramos da parreira, galhos da oliva, lavradores da
vinha, coluna e baluarte da verdade, luzeiro e sacerdócio real.
Há também expressões parecidas sacadas da agricultura
como lavoura, vinha e horta, mas estes termos refletem mais a obra de
Cristo nos integrantes da igreja, em conjunto com termos no sentido de
edifício, construção e seu vínculo com colocações da obra de Cristo na igreja.
Esta agrupação de termos reflete a natureza da
igreja pelo seu aspecto do processo de desenvolvimento, chegando a cumprir com
o propósito de Deus.
A figura do corpo de Cristo também salienta a
ligação da igreja, como um grupo de crentes, com Cristo. A salvação, em toda
sua complexidade, é em grande parte uma consequência da união com Cristo. A
imagem é usada tanto para a igreja universal (Ef 1:22-23) como para
congregações locais (1Co 12:27).
Observamos no capitulo 33 algumas referências ao
fato de o crente estar “em Cristo”. Aqui encontramos uma ênfase no reverso
desse fato. Cristo no crente é a base da fé e da esperança. Paulo escreve: “Aos
quais [se refere aos santos] Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da
gloria deste ministério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da
glória” (Cl 1:27, Gl 2:20).
Em fim podemos dizer que a figura da igreja como
corpo de Cristo comporta vários aspectos:
Cristo é a cabeça desse corpo (Cl 1:18) do qual os
crentes, como indivíduos são membros ou partes, os crentes unidos a ele, estão
sendo alimentados por meio dele, a cabeça a que estão ligados (Cl 2:19).
A figura do corpo de Cristo também fala da ligação
mutua entre todas as pessoas que compõem a igreja. Não existe algo como uma
vida cristã isolada solitária. Em 1Co 12, Paulo desenvolve o conceito da
interligação do corpo, especialmente com respeito aos dons do Espirito, aqui
ele salienta a dependência de cada crente em relação a todos os outros.
O corpo deve ser caracterizado pela comunhão
genuína. Isso não significa meras relações sociais, mas um sentimento de
intimidade e uma compreensão mútua. Deve haver empatia e encorajamento
(edificação). O que é experimentado por um é experimentado por todos. Assim,
Paulo escreve: “De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se
um deles é honrado, com eles todos se regozijam” (1Co 12:26), um exemplo é a
igreja de Atos que dividiu os seus bens.
O corpo deve ser unido, os membros da igreja de
Corinto estavam divididos quanto aos líderes religiosos a que deviam seguir
(1Co 1:10-17; 1Co 3:1-9). Haviam formado divisões ou facções que se
evidenciavam demais nas reuniões da igreja (1Co 11:17-19).
O corpo de Cristo é também universal. É para todos
os que chegarão a ele. Já não há requisitos especiais como nacionalidade. Todas
as barreiras deste tipo foram removidas, como indica Paulo: “no qual não pode
haver grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo,
livre; porém Cristo é tudo em todo” (Cl 3:11).
Sendo o corpo de Cristo, a igreja é a expansão de
seu ministério, Jesus deixou uma ordenança para a grande comissão de Cristo (Mt
28:18), assim Jesus enviou os seus discípulos para evangelizar, batizar e
ensinar, prometendo-lhes que sempre estaria com eles, até o final dos tempos
(vs. 19-20). Cristo lhes disse que deveriam prosseguir com seu trabalho e que o
fariam em grau assombroso (Jo14:12), assim sendo, a obra de Cristo sendo feita
pela Igreja.
O noivo e a noiva (Ef 5) - O Antigo
Testamento utiliza muito a imagem da esposa, muitas vezes encerrado nos termos
de prostituição.
Vez por outra, a mensagem referida tem sentido
duplo, já que o culto aos deuses dos povos ao redor de Israel era comumente
associado a orgias e à utilização de prostituição nos próprios templos e
altares pagãos.
Quando o texto fala de prostituir-se com outros
deuses, trata diretamente de questões de prostituição e lascívia sexual, mas o
enfoque principal é a infidelidade de Israel a YHWH, sob a figura
da relação matrimonial sendo violada pela esposa.
O ideal da natureza da igreja é, no entanto,
referido aqui no sentido de pureza relacional e fidelidade perante Deus. É este
aspecto da natureza da igreja que normalmente vem sendo apontado na utilização
dos termos esposa, noiva e também Templo.
A Unidade da Igreja
De ajuda na compreensão da natureza da igreja é uma
doutrina claramente ensinada no Novo Testamento, a unidade da igreja. O ideal
da unidade é salientado na oração sacerdotal de Jesus (Jo 17:20-23), bem como
em Efésios 4:1-16, na dissertação de Paulo sobre a igreja.
Isso também se reflete numa referência à igreja
local de Jerusalém (At 4:32) e num apelo para que os crentes tenham um coração
em mente (Fp 2:2).
Paradoxalmente, porém, a igreja, conforme existe
hoje no mundo, não parece estar unificada.
Vemos incontáveis denominações, às vezes bem
semelhantes quanto ao ensino, competindo umas com as outras. E os
relacionamentos entre os membros da Igreja local são às vezes caracterizados
por indiferença e até hostilidade aberta. Mas sabemos que, como crentes,
devíamos estar perseguindo a unidade, pois essa é a vontade declarada de Cristo
para a igreja.
Devemos perguntar, portanto, o que ele tinha em
vista. Nos últimos anos, tem surgido várias concepções acerca das implicações
da unidade:
Alguns cristãos entendem a unidade da igreja como
algo essencialmente espiritual quanto à natureza. Encontram a unidade no fato
de todos os crentes servirem e amarem ao mesmo Senhor.
Embora não estejam organicamente ligados a outros
grupos de crentes e talvez não atuem juntos em nenhum projeto externo, amam-se
uns aos outros, mesmo às pessoas com quem não tem nenhum contato. Um dia,
quando a noiva de Cristo, a igreja, for reunida, haverá verdadeira unidade.
A unidade, em outras palavras, aplica-se à igreja
universal ou invisível, mais do que à igreja visível.
A segunda concepção centra-se no reconhecimento e
na comunhão mútua. Essa abordagem dá ênfase ao fato de que, embora as
congregações e denominações sejam separadas umas das outras, possuem
basicamente a mesma fé e, portanto, devem lutar para dar expressão observável a
essa unidade, usando todos os meios possíveis.
Assim, deve haver comunhão entre diferentes grupos,
transferências imediatas de filiação e intercâmbios de púlpito. Sempre que
possível, as congregações e denominações devem trabalhar juntas em seu serviço
ao Senhor.
Uma terceira concepção promove a unidade conciliar.
Embora mantenham a identidade individual, as denominações se juntam numa
associação ou num conselho formal. Elas confessam suas próprias tradições e
convicções, mas também procuram juntar as forças na ação.
Finalmente, há a concepção de que a unidade da
igreja significa unidade orgânica. Aqui, as congregações se unem numa grande
denominação, juntando suas tradições. A igreja Unida do Canadá, que juntou
metodistas, presbiterianos e congregacionais em uma só comunidade, é um exemplo
de tal movimento. O alvo supremo é a união de todas as denominações em um
grupo.
Em geral, o movimento rumo à unidade conciliar e
orgânica, especialmente esta última, vem declinado consideravelmente em anos
recentes. Com certeza, os crentes devem desejar e buscar a concretização de uma
unidade espiritual e, na medida do possível, o reconhecimento e a comunhão
mútua.
Cada pessoa e congregação terá de determinar até
que ponto o envolvimento maior e a atividade cooperativa são coerentes com a
preservação de suas convicções bíblicas e com o cumprimento da tarefa dada pelo
Senhor.
O Caráter Multiforme da Igreja
A da Igreja Militante e a Igreja Triunfante – Na presente dispensação, a igreja é militante, isto é, convocada
para uma guerra santa, e de fato nela está emprenhada.
Isto, naturalmente, não significa que ela deve
gastar suas forças em lutas sangrentas de autodestruição, mas, sim, que tem o
dever de levar avante uma incessante guerra contra o mundo hostil em todas as
formas em que este se revele, seja na igreja ou fora dela, e contra todos os
poderes espirituais das trevas.
A igreja não pode passar o tempo todo em oração e
meditação, embora estas práticas sejam tão necessárias e importantes, nem tampouco
deve parar de agir, no pacífico gozo da sua herança espiritual. Ela tem que
estar engajada com todas as suas forças nas pelejas do seu Senhor, combatendo
numa guerra que é tanto ofensiva como defensiva.
Se a igreja na terra é a igreja militante, no céu é
a igreja triunfante. Lá a espada é permutada pelos louros da vitória, os brados
de guerra se transformam em cânticos triunfais, e a cruz é substituída pela
coroa. A luta é finda, a batalha está ganha, e os santos reinam com Cristo para
todo o sempre.
Nestes dois estágios da sua existência, a igreja
reflete a humilhação e a exaltação do seu celestial Senhor.
Os católicos romanos falam, não somente de uma
igreja militante e triunfante, mas também de uma igreja padecente.
Esta igreja, de acordo com eles, inclui todos os crentes que já não estão na
terra, mas que ainda não penetraram nos gozos do céu, e agora estão sendo
purificados dos seus restantes pecados no purgatório.
Distinção entre Igreja Visível e Invisível – Quer dizer que, de um lado, a igreja de Deus é visível, e de
outro, é invisível. Dizem que Lutero foi o primeiro a fazer esta distinção, mas
os outros Reformadores a reconheceram e também a aplicaram à igreja. Nem sempre
se entendeu bem esta distinção.
Os oponentes dos Reformadores frequentemente os
acusavam de ensinarem que existem duas igrejas separadas.
Lutero talvez tenha dado ocasião a esta acusação,
por falar de uma ecclesiola invisível dentro da ecclesia visível.
Mas tanto ele como Calvino acentuam o fato de que,
quando falam de uma igreja visível e invisível, não se referem a duas igrejas,
mas a dois aspectos da única igreja de Jesus Cristo.
Tem-se interpretado variadamente o termo
“invisível” como aplicável
(a) à igreja triunfante;
(b) à igreja ideal e completa, como será no fim dos
séculos;
(c) à igreja de todas as terras e de todos os
lugares, que o homem não tem nenhuma possibilidade de ver; e
(d) à igreja como ela vive nos dias de perseguição,
oculta e privada da Palavra e dos sacramentos.
Agora, é indubitavelmente certo que a igreja
triunfante é invisível para os que se acham na terra, e que Calvino, em suas
Institutas, também concebe como incluída na igreja invisível, mas, sem dúvida,
a distinção foi feita principalmente com a intenção de aplicar-se à igreja
militante. Em geral, é feita essa aplicação na teologia reformada (calvinista).
Ela ressalta o fato de que a igreja, como existe na
terra, é visível e invisível.
Esta igreja é dita invisível porque é
essencialmente espiritual e, em sua essência espiritual, não a pode discernir o
olho humano; e porque é impossível determinar infalivelmente quem não lhe
pertence.
A união dos crentes com Cristo é uma união mística;
o Espírito que o une constitui um laço invisível; e as bênçãos da salvação,
tais como a regeneração, a conversão genuína, a fé verdadeira e a comunhão
espiritual com Cristo, são todas invisíveis aos olhos naturais; – e, todavia,
estas coisas constituem a forma real (o caráter ideal) da
igreja.
Que o termo “invisível” deve ser entendido neste
sentido, vê-se pela origem histórica da distinção entre a igreja visível e a
invisível na época da Reforma.
A Bíblia atribui certos atributos gloriosos à
igreja e a apresenta como um meio de salvação e de bênçãos eternais.
Roma aplicava isto à igreja como instituição externa,
mais particularmente à ecclesia representativa ou
à hierarquia como distribuidora das bênçãos da salvação e, assim, ignorava e
virtualmente negava a comunhão imediata e direta de Deus com os Seus filhos,
colocando entre eles um sacerdócio mediatário humano.
Este é o erro que os Reformadores procuraram
erradicar salientando o fato de que a igreja da qual a Bíblia diz coisas tão
gloriosas não é a igreja considerada como instituição externa, mas a igreja
como corpo espiritual de Jesus Cristo, que é essencialmente invisível no
presente, embora tendo uma encarnação relativa e imperfeita na igreja visível e
esteja destinada a ter uma perfeita encarnação visível no fim dos séculos.
Naturalmente, a igreja invisível assume uma forma
visível. Justamente como a alma humana se adapta a um corpo e se expressa por
meio do corpo, assim a igreja invisível, que consiste, não de almas, mas de
seres humanas que têm alma e corpo, assume necessariamente forma visível numa
organização externa, por meio da qual se expressa.
A igreja é visível na profissão de fé e conduta
cristã, no ministério da Palavra e dos sacramentos, e na organização externa e
seu governo.
Ao fazer esta distinção, diz McPherson: “O
protestantismo procurou encontrar o ponto médio adequado entre o externalismo
mágico e sobrenatural da idéia romanista e a extravagante depreciação de todos
os ritos externos característica do espiritualismo fanático e sectário”.[1]
É muito importante ter em mente que, embora tanto a
igreja invisível como a visível possam ser consideradas universais, as duas não
são comensuráveis em todos os aspectos. É possível que alguns pertencem à
igreja invisível nunca se tornem membros da organização visível, como as
pessoas alcançadas pela ação missionária e convertidas em seus leitos de morte,
e que outros sejam temporariamente excluídos dela, como crentes errantes por
algum tempo afastados da comunhão da igreja visível.
Por outro lado, pode haver crianças e adultos não
regenerados que, apesar de professarem a Cristo, não têm a verdadeira fé nele,
se achem na igreja como instituição externa; e estes, enquanto estiverem nestas
condições, não pertencerão à igreja invisível.
Pode-se achar boas definições da igreja invisível
na Confissão de Westminster.
A Distinção Entre a Igreja Como Organismo e a Igreja Como Instituição – Não se deve identificar esta distinção com a imediatamente
anterior, como às vezes se faz. É uma distinção que se aplica à igreja visível e
dirige a atenção a dois aspectos diferentes da igreja considerada como corpo
visível.[2]
É um erro pensar que a igreja só se torna visível
nos ofícios, na administração da Palavra e dos Sacramentos e numa certa forma
de governo eclesiástico.
Mesmo que todas estas coisa estivessem ausentes, a
igreja continuaria sendo visível na vida comunitária e no testemunho público
dos crentes, e em sua unida oposição ao mundo. Mas, embora salientando o fato
de que a distinção em foco é feita dentro da igreja visível, não devemos
esquecer que tanto a igreja como organismo como a igreja como instituição
(também chamadas apparitio einstitutio – função e
instituição) têm seu pano de fundo na igreja invisível.
Contudo, apesar de ser verdade que estes são dois
aspectos diferentes da igreja visível, representam diferenças importantes.
A igreja como organismo é o coetus fidelium,
a união ou comunhão dos fiéis, unidos pelo vínculo do Espírito, enquanto que a
igreja como instituição é a mater fidelium, a mãe dos fiéis,
uma Heilsanstalt, um meio de salvação, uma agência para a conversão
dos pecadores e para o aperfeiçoamento dos santos.
A igreja como organismo tem existência carismática:
nela todos os tipos de dons e talentos tornam-se manifestos e são utilizados na
obra do Senhor.
A igreja como instituição, por outro lado, existe
numa forma institucional e funciona por meio dos ofícios e meios que Deus
instituiu. Num sentido, ambas são coordenadas, e, todavia, há também certa
subordinação de uma à outra.
A igreja como instituição ou organização (mater
fidelium) é um meio para um fim, e este fim se acha na igreja como
organismo, a comunidade dos crentes (coetus fidelium).
As Marcas da Igreja em Particular
A fiel pregação da Palavra. Esta é a mais importante marca da igreja.
Enquanto que esta independe dos sacramentos, estes não são independentes dela.
A fiel pregação da Palavra é o grande meio para a
manutenção da igreja e para habilita-la a ser a mãe dos fiéis. Que esta é uma
das características da igreja transparece em passagens como Jo 8.31, 32, 47;
14.23; 1 Jo 4.1-3; 2 Jo 9.
Atribuir esta marca à igreja não significa que a
pregação da Palavra na igreja terá que ser perfeita para que ela possa ser
considerada como igreja verdadeira. Tal ideal é inatingível na terra; só se
pode atribuir à igreja uma relativa pureza de doutrina.
Uma igreja pode ser relativamente impura em sua
apresentação da verdade, sem deixar de ser uma igreja verdadeira. Mas há um
limite além do qual a igreja não pode ir, na apresentação errônea da verdade ou
em sua negação, sem perder o seu verdadeiro caráter e tornar-se uma igreja
falsa.
É o que acontece quando artigos fundamentais de fé
são negados publicamente, e a doutrina e a vida já não estão sob o domínio da
Palavra de Deus.
A correta ministração dos sacramentos. Jamais se deve separar os sacramentos da Palavra, pois eles não
têm conteúdo próprio, mas extraem o seu conteúdo da Palavra de Deus; são de
fato uma pregação visível da Palavra.
Nesta qualidade, eles devem ser ministrados por
legítimos ministros da Palavra, de acordo com a instituição divina, e somente a
participantes devidamente qualificados – os crentes e sua semente. Uma negação
das verdades centrais do Evangelho, naturalmente afetará a adequada ministração
dos sacramentos; e, certamente, a igreja de Roma se afasta do modo correto
quando separa da Palavra de Deus os sacramentos, atribuindo-lhes uma espécie de
eficácia mágica, e quando permite que as parteiras ministrem o batismo, em
ocasiões de necessidade.
Que a reta administração dos sacramentos é uma
característica da igreja verdadeira, segue-se da sua inseparável conexão com a
pregação da Palavra e de passagens como Mt 28.19; Mc 16.15, 16; At 2.42; 1 Co
11.23-30.
O fiel exercício de disciplina. É deveras essencial para a manutenção da pureza da
doutrina e para salvaguardar a santidade dos sacramentos.
As igrejas que relaxarem na disciplina, descobrirão
mais cedo ou mais tarde em sua esfera de influência um eclipse da luz da
verdade e abusos nas coisas santas.
Daí a igreja que quiser permanecer fiel ao seu
ideal, na medida em que isto é possível na terra, deverá ser diligente e
conscienciosa no exercício da disciplina cristã.
A Palavra de Deus insiste na adequada disciplina a
ser exercida na igreja de Cristo, Mt 18.18; 1 Co 5.1-5, 13; 14.33, 40; Ap 2.14,
15, 20.
Referências:
BERKOFF, Louis. Teologia Sistemática, Campinas: Luz para o Caminho.
CHAFER, Lewis Sperry. Teologia Sistemática,
São Paulo: Hagnos
COFFANI, Edson Rogério. Apostila de Eclesiologia. Escola Teológica Batista
Auriflamense.
ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia
Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1997.
DAGG, John Leadley. Manual de Teologia,
S. J. Campos: Fiel
GEORGE, Timothy. Teologia dos
Reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova,
GETZ, Gene. Igreja: Forma e Essência, O
Corpo .... São Paulo: Edições Vida Nova, 1994.
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática.
São Paulo: Edições Vida Nova, 1999.
HARBIN, Christopher. Apostila de Eclesiologia. Seminário Teológico Batista
do Rio Grande do Sul.
HODGE, Charles. Teologia Sistemática,
São Paulo: Hagnos
HORRELL, Scott. Ed. Ultrapassando
Barreiras, volumes 1 e 2. São Paulo: Edições V. Nova
HISCOX, Edward T. Manual das Igrejas
Batistas. São Paulo: Editora Batista Regular
LANGSTON, A.B. Esboço de Teologia
Sistemática, Rio: JUERP
SOBRINHO, João Falcão. A Túnica Inconsútil.
Rio: JUERP
STRONG, A.H. Teologia Sistemática, São
Paulo: Hagnos
THIESSEN, Henry C. Palestras em Teologia
Sistemática, São Paulo: Editora Batista Regular
[2] Cf. Kuyper, Enc. III, p. 204;
Bavinck, Geref. Dogm. IV, p. 331; Ten Hoor, Afscheiding of
Goleantie, p. 88, 89; Doekes, De Moeder der Geloovigen, p. 10,
11; Steen, de Kerk, p. 51 e segtes.
UMA ECLESIOLOGIA EM TEMPOS DE PLURALISMO RELIGIOSO
Faustino Teixeira
PPCIR-UFJF
“Meu coração está aberto a todas as formas:
é uma pastagem para as gazelas,
e um claustro para os monges cristãos,
um templo para os ídolos,
A Caaba do peregrino,
As Tábuas da Torá,
e o livro do Corão.
Professo a religião do amor,
em qualquer direção que avancem Seus camelos;
a religião do Amor
será minha religião e minha fé”
(Ibn al-Arabî)
Introdução
Não constitui tarefa fácil responder ao desafio de
repensar a eclesiologia a partir do paradígma do pluralismo religioso. Esta foi
a proposta lançada pela Comissão Teológica Latino-Americana da ASETT, dando
continuidade ao importante trabalho em favor de um diálogo entre a teologia da
libertação e a teologia do pluralismo religioso. A intenção deste breve ensaio
é bem mais modesta. Trata-se aqui de apontar algumas indagações e dúvidas que
foram aparecendo ao longo do itinerário das pesquisas em torno da questão da
teologia cristã das religiões, do diálogo inter-religioso e do desafio do
pluralismo das religiões. O artigo não deve ser entendido como uma reflexão
cristalizada, mas aberta à interlocução e ao aprendizado. São, de fato, dúvidas
e preocupações, mais do que uma sistematização finalizada. A tarefa de
construir uma eclesiologia a partir do desafio do pluralismo religioso está
ainda por se fazer. O que se pretende aqui é apenas aventar algumas questões e
pistas para a reflexão futura.
1. O embaraço eclesiológico
O que se pode perceber em diversos trabalhos realizados
em torno da teologia cristã do pluralismo religioso é um certo embaraço
eclesiológico, ou seja, a dificuldade real de avançar uma reflexão
eclesiológica para além dos limites definidos pela reflexão magisterial
tradicional. As expressões cunhadas pela tradição são de tal forma decisivas e
vinculantes que inibem o trabalho hermenêutico exigido. Há que acrescentar
outra questão importante que tolhe ou impede o livre exercício da reflexão
teológica, no campo católico-romano, que é o controle permanente sobre a
atividade e produção acadêmica dos teólogos que atuam em institutos teológicos
e universidades católicas, submetidos ao “mandato da competente autoridade
eclesiástica”[1]. Paira sobre esta
questão um “pesado e perigoso atentado à liberdade de pesquisa e de
magistério”, como bem salientou um grupo de teólogos europeus em declaração de
1989[2]. Não foram poucos os
teólogos católico-romanos que nos últimos anos sofreram investigação ou
processo movido pela Congregação para a Doutrina da Fé em razão de suas
reflexões sobre o diálogo inter-religioso e o pluralismo religioso.
Em livro publicado em 2001, o teólogo Jacques Dupuis
defende o espaço para uma reflexão teológica diversificada, que possa expressar
a liberdade e a criatividade de pensar a fé e a teologia num mundo marcado pelo
pluralismo religioso. A realidade religiosa plural provoca um novo modo de
fazer teologia e a plausibilidade de “distintas percepções” e enunciações da
mesma fé cristã. No presente contexto interreligioso causa grande dificuldade a
manutenção de reflexões teológicas pontuadas pela dinâmica exclusivista. Na
visão de Dupuis, “afirmações absolutas e exclusivas sobre Cristo e sobre o
cristianismo, que reivindicassem a posse exclusiva da auto-manifestação de Deus
ou dos meios de salvação, distorceriam e contradiriam a mensagem cristã e a
imagem cristã”[3].
Argumenta-se em geral no campo da reflexão sobre a
teologia do pluralismo religioso que é o modo de compreender Jesus Cristo que
tem dificultado uma maior abertura à singularidade das outras tradições
religiosas[4]. Não há como
desconhecer este dado, mas pode-se igualmente sublinhar que a compreensão da
igreja tem igualmente suscitado inúmeras dificuldades no diálogo com as outras religiões. No
âmbito católico-romano permanece vigente uma compreensão que expressa uma
centralidade inibidora, exemplificada na passagem da Declaração do Concílio
Vaticano II sobre a liberdade religiosa: “Cremos que esta única religião
verdadeira se encontra[5] na Igreja católica e apostólica, à qual o Senhor Jesus
confiou o encargo de levá-la a todos os homens (...)”[6]. Os historiadores do
Concílio Vaticano II mostram como a passagem mencionada foi inserida na
Declaração sob a pressão da minoria conciliar, para equilibrar a afirmação da
liberdade religiosa com a doutrina tradicional católica. Os tradicionalistas
reuniram todas as suas forças para reafirmar os direitos do catolicismo romano
como religião revelada e resistir ao desafio da liberdade religiosa, que para
eles significava o direito a uma “consciência errônea”[7]. Esta visão tradicional
vem retomada na Declaração Dominus
Iesus, da Congregação para a Doutrina da Fé, que trata a questão da
unicidade e universalidade salvífica de Jesus e da igreja. Reafirma-se na
Declaração que a “única verdadeira
religião se verifica na Igreja católica e Apostólica” (DI 23) e que os adeptos
das outras religiões encontram-se objetivamente “numa situação gravemente
deficitária, se comparada com a daqueles que na Igreja têm a plenitude dos
meios de salvação” (DI 22)[8].
A força e o peso das afirmações doutrinais tradicionais
sobre a igreja acabam atemorizando ou bloqueando uma reflexão eclesiológica
mais aberta sobre o pluralismo religioso. A busca de fidelidade ao passado
acaba sendo preponderante e o “terror face ao risco inerente a qualquer
interpretação provoca a repetição das fórmulas tradicionais”[9]. Permanece bem acesa na
reflexão teológica uma terminologia que é devedora de um eclesiocentrismo
problemático. Para Jacques Dupuis, ainda vigoram “traços claros de um vocabulário
deletério com respeito aos ´outros`”, evidenciando a fundamental importância de
uma “purificação da linguagem teológica”[10]. Algumas expressões do
repertório eclesiológico provocam desconforto no campo do diálogo com as outras
religiões, exercendo um efeito negativo, como é o caso da noção de “povo de
Deus”. Trata-se de um termo que assinala a especial eleição do povo de Israel por
Deus, que foi ampliada e concretizada na igreja. Falar no tempo atual de um
povo eleito por Deus, como se os outros povos fossem excluídos da eleição,
torna-se problemático. Não é sem razão que alguns teólogos têm sugerido o
abandono desta terminologia, no sentido de resguardar a não discriminação do
amor[11]. Na verdade, como
sublinhado no manifesto do I Encontro da Assembléia do Povo de Deus, no ano de
1992 em Quito (Equador), o “povo de Deus são muitos povos”[12]. Outra expressão
problemática é a que fala em “ordenação” dos não cristãos ao povo de Deus. Esta
expressão, presente na Lumen
Gentium16, com base em Tomás de Aquino[13], é recorrente mesmo nos
textos dos teólogos inclusivistas que trabalham o tema da teologia do
pluralismo religioso[14]. Pode-se também
mencionar a definição de igreja como “sacramento universal da salvação”,
presente na Lumen Gentium 48, e da “necessidade” da igreja
para a salvação (LG 14).
Há que destacar que a reflexão teológica
inclusivista no campo
católico-romano está vinculada
ao posicionamento eclesiológico firmado
no Concílio Vaticano II, e em particular à reflexão da Lumen Gentium. É verdade que
esforços importantes e significativos estão sendo feitos, mesmo no âmbito do
inclusivismo, de ampliar a interpretação do Concílio e garantir a
plausibilidade de uma abertura hermenêutica e inter-religiosa. É o que por
exemplo busca fazer Jacques Dupuis ao refletir sobre a questão da
sacramentalidade da igreja. Em sua visão, não há como garantir a perspectiva
dialogal mantendo a idéia da igreja como a mediação universal da graça. Na
verdade, a ação salvífica de Deus é bem mais ampla e multifacetada. A igreja é
sacramento, sinal e instrumento do Reino de Deus, universalmente presente na
história, mas isto não implica que ela seja a “mediação universal da graça”,
pois a graça de Deus acontece permanentemente na resposta afirmativa ao convite
de Deus que vem sendo dada na prática de fé e amor das próprias tradições
religiosas[15].
2. A pista aberta pelo reinocentrismo
Um passo importante na busca de superação do
eclesiocentrismo na teologia cristã das religiões foi dado com a afirmação do
reinocentrismo. Com esta nova perspectiva busca-se mostrar “como o cristianismo
e as outras tradições religiosas são co-participantes da realidade universal do
reino de Deus para cuja construção são chamados a colaborar até a sua plenitude
escatológica”[16]. O dado da
universalidade do reino de Deus leva a teologia das religiões a reconhecer na
prática sincera das tradições religiosas, onde quer que esta ocorra, uma resposta
à chamada de Deus. Os cristãos e os “outros” partilham, assim, do mesmo
mistério de salvação, ainda que por caminhos diferentes. Segundo a ótica
cristã, é legítimo afirmar que os participantes de outras tradições religiosas
são efetivamente “membros ativos do reino”, com presença singular na sua
edificação, pois o reino acontece “onde quer que se atue na graça a obediência
para com Deus, enquanto aceitação da auto-participação de Deus”[17].
A escolha da expressão “reino de Deus” é circunscrita a
um espaço bem demarcado. Trata-se de uma expressão de valência no âmbito do
judeu-cristianismo.[18] Daí alguns autores levantarem a questão de sua
plausibilidade no âmbito da reflexão da teologia do pluralismo religioso e do
diálogo inter-religioso. O
teólogo Christian Duquoc assinala que a metáfora do reino suscita reticências.
Não há como deixar de reportá-la à bíblia. Trata-se de uma expressão que “se
beneficia de um menor poder de universalidade, ja que se insere num espaço
muito bem definido”[19]. Semelhante dificuldade
lança o teólogo Miguel Quatra. Mesmo reconhecendo a importância desta
expressão, enquanto um dos “mais grandiosos símbolos religiosos da humanidade”,
assinala que “a linguagem mediante a qual vem veiculada arrisca permanecer
estranha, incompreensível e pouco comunicativa, sobretudo no contexto asiático”[20]. Há que estar bem
consciente desta questão quando se trabalha com esta categoria, que é bem
central na reflexão da teologia cristã das religiões. Trata-se de uma categoria
fundamental na interpretação cristã
e que permanece válida no âmbito desta interpretação. Para a reflexão mais
ampla do diálogo inter-religioso é
necessário buscar novas e mais amplas categorias com maior poder de
universalização.
Com base na interpretação cristã, a expressão “reino de
Deus” é um símbolo religioso que aponta para uma esfera transcendental.
Na medida em que alude ao reino de Deus, é realidade
engendrada por um poder transcendente que
não tem como ser circunscrito pela imaginação humana, nem definido em termos
conceituais ou factuais precisos. O reino de Deus é escatológico, em última
instância, abarca o futuro, o fim dos tempos, o arremate e a realização da história. Trata-se de um reino
utópico, e pensar que seu advento ocorrerá em determinado tempo e lugar é
equivocar-se a respeito do símbolo[21].
Mas o reino de Deus não significa exclusivamente um
evento escatológico, uma realidade ainda por vir, mas é a expressão da
soberanidade de Deus que se avizinha ao humano na medida em que se realiza o
empenho em favor de uma comunidade mais justa, fraterna e solidária. O reino
também se realiza “onde quer que Deus esteja reinando mediante sua graça, seu amor,
vencendo o pecado e ajudando os homens a crescer (...)”[22]. É, portanto, uma
realidade que acontece também fora das práticas explicitamente eclesiais, e
igualmente nos circuitos das outras tradições religiosas.
O reino de Deus constitui o núcleo central da pregação de
Jesus de Nazaré. O coração de sua mensagem foi teocêntrico, o cristocentrismo
virá depois com a dinâmica eclesial. Jesus
não proclamava a si mesmo; sua pessoa e sua obra não
aparecem como o foco de seu próprio ensinamento. Pelo contrário, falava a
respeito de Deus, a quem se referia como Pai. Deus, a vontade de Deus, os
valores de Deus, as prioridades de Deus dominavam tudo quanto se lembrava de
haver Jesus dito e feito[23].
Toda a vida e atividade de Jesus
estão voltados para o reino de Deus, enquanto reino de afirmação da vida. Para
ele o reino simboliza o novo domínio de Deus sobre a história, que renova todas
as coisas e restabelece relações distintas e fraternas entre os seres humanos e
uma nova perspectiva de acolhida e hospitalidade. Através de sua dinâmica
vital, Jesus sinalizou a presença de Deus no mundo e apontou de forma singular
a realidade intensa e surpreendente de sua vontade transformadora e
libertadora.
Assim como a perspectiva
reinocêntrica coincide com o coração da mensagem de Jesus, ela revela-se
igualmente essencial para a vida eclesial. A igreja nasce na dinâmica do
seguimento de Jesus e a razão de sua inserção no mundo é ser o sacramento do
reino na história. De forma muito feliz esta idéia foi expressa pela Comissão
Teológica Consultiva da Federação das Conferências dos Bispos Asiáticos, nas
Teses sobre o diálogo inter-religioso:
O foco da missão
evangelizadora da Igreja é a construção do Reino de Deus e a construção da
Igreja para estar a serviço do Reino. O Reino é portanto mais amplo do que a
Igreja. A Igreja é o sacramento do Reino, tornando-o visível, ordenada para
ele, promovendo-o, mas não
equiparando-se a ele[24].
Em seu precioso trabalho sobre
a questão do reino de Deus e a missão da igreja nos documentos dos bispos
asiáticos, Miguel Quatra mostrou que o reino não pode ser um capítulo da
eclesiologia, mas “o coração e a razão de ser da eclesiologia”. Não pode haver
para ele uma inteligibilidade autônoma da igreja, mas ela está sempre
referendada ao horizonte mais amplo e envolvente do reino de Deus. Em
contraponto com a encíclicaRedemptoris missio (1990), de João Paulo II[25], que afirma não poder
ser o reino de Deus separado da igreja (RMI 18), Quatra sinaliza ser mais
verdadeiro ainda o fato da igreja não poder jamais ser separada do reino.[26]
A perspectiva reinocêntrica,
que é comum à reflexão teológica asiática e latino-americana, tem suscitado muita
perplexidade. A mencionada encíclica de João Paulo II sobre a validade
permanente do mandato missionário (Redemptoris
missio) expressa algumas preocupações em torno da perspectiva
reinocêntrica. Há, em particular, o temor do papa face a uma reflexão sobre o
reino em dissonância com o sentir da igreja, quer enfatizando uma compreensão
humanizada e secularizada do reino, quer marginalizando e desvalorizando a
igreja (RMI 17-18). Há igualmente o temor de que a centralidade do reino e a
ênfase na difusão dos valores evangélicos acabe por deslocar para um segundo
plano o anúncio explícito de Jesus Cristo e o empenho missionário em favor da plantatio ecclesiae(RMI 44 e
48)[27]. O que ocorre, na
verdade, é um grande receio de que a abertura reinocêntrica possa amenizar ou
relativizar a convicção tradicional sobre a necessidade da igreja para a
salvação e a consciência de que ela possui a “plenitude dos meios de salvação”.
Como mostrou Christian Duquoc, o reino para o qual tende a igreja é também o
seu “tormento”, pois ele relativiza o instituído e provoca a necessidade de sua
dinamização e reforma[28]. A violência que muitas
vezes acompanha o exercício eclesial é expressão e desdobramento de uma rígida
convicção de possuir exclusivamente a verdade e a dificuldade de compreender e
viver a dinâmica da provisoriedade.
Na visão de Duquoc, as censuras ,
inquisições, excomunhões, cruzadas, guerras de religião não foram
acidentais, mas efeitos
lógicos da instituição, em razão de sua singular e autêntica relação com a
Verdade e a Santidade. É a inscrição institucional do Absoluto na contingência
social que (...) tem provocado a violência de uma doutrina e de uma
autoridade consagrada, por
vocação, à não violência[29].
Compreender a igreja como sacramento
do reino é captar o permamente movimento de peregrinação da igreja, de seu
caminho para aquilo que a precede e finaliza, de ampliação de seus horizontes,
de abertura ao desafio da alteridade. A importante noção de sacramento não
“sacraliza a instituição, mas a descerra na sua forma ambigua para aquilo que,
em seu seio, a supera e a relativiza”[30].
Na linha da perspectiva
reinocêntrica abre-se também espaço decisivo para o reconhecimento da ação
salvífica de Deus nas outras tradições culturais e religiosas, uma vez que a
realidade do reino atua igualmente fora dos confins da igreja, onde quer que os
valores autênticos estejam em curso. O reino de Deus é antes de tudo dinamismo
e relação: ele provoca e suscita a abertura, o contato, a empatia, o encontro,
a hospitalidade e a cortesia inter-religiosa. Todas as tradições religiosas
participam e partilham do envolvimento do reino, mas nenhuma delas pode
arrogar-se uma ligação exclusiva com ele. O que ocorre é uma “simbolização
interreligiosa do reino”, mais adequada para dar conta de sua real
universalidade.[31]
A nova perspectiva favorece uma
eclesiogênese: uma igreja que se reconhece com os outros e para os outros. O
pluralismo religioso não somente vem reconhecido como um valor essencial mas
passa também a fazer parte da própria inteligibilidade da igreja.[32] Ocorre uma radical transição de modelo eclesial, de uma
perspectiva eclesiocentrada para uma outra extroversa e dialógica. A missão não
perde o seu sentido, mas vem ressignificada. O testemunho e a promoção dos
valores do reino ganham um lugar decisivo, bem como a partilha da experiência
de Jesus, entendida sobretudo como um mistério de amor que produz e suscita
vida em abundância. A motivação missionária deixa de ser uma obrigação ou
mandato, mas a partilha de um dom que é convocação para o amor. Como bem
entenderam os asiáticos, que são mestres do diálogo, a proclamação de Jesus
acontece sobretudo no diálogo e nos atos, no exercício do seguimento dos
valores por ele anunciado, como a promoção da justiça, da paz, da caridade, da
fraternidade, da hospitalidade e da compaixão. Na perspectiva reinocêntrica, a
missão da igreja não se traduz pela sede de ampliação de seus domínios ou
extensão quantitativa dos cristãos, mas por levar adiante o testemunho vigoroso
do reino de Deus que vem, em
diálogo com todos os homens e mulheres generosos, pertencentes ou não às
diversas tradições religiosas.
3. Desafios para a
eclesiologia num mundo religiosamente pluralista
O momento presente vem marcado por
uma consciência cada vez mais clara do rico patrimônio da diversidade
religiosa. Não há como manter sustentando unicamente a plausibidade de um
pluralismo de fato e a convicção de que as religiões encontram o seu acabamento
ou remate numa dada tradição religiosa. Cresce a percepção de que as religiões
não são apenas genuinamente diferentes, mas também autenticamente preciosas. Há
que honrar esta alteridade e esta irrevogabilidade das tradições religiosas. E
honrar a alteridade é ser capaz de reconhecer o valor e a plausibilidade de um
pluralismo religioso de princípio. A diversidade religiosa deve ser reconhecida
não como expressão da limitação humana ou fruto de uma realidade conjuntural
passageira, mas como traço de valor e riqueza.
Como indicou Roger Haight, “o
reconhecimento e a avaliação positiva de outros credos religiosos, o estudo de
outras religiões e a prática do diálogo inter-religioso têm estimulado a
questão profundamente engajadora da teologia cristã das religiões”[33]. A crescente
consciência histórica, a agudeza da percepção do mundo da alteridade e o
aperfeiçoamento dos instrumentais críticos, têm suscitado problemas
intelectuais bem decisivos e uma resistência cada vez mais crescente às formas
recorrentes de inteligibilidade das afirmações tradicionais cristãs sobre Jesus
Cristo e a igreja. Determinado tipo de linguagem torna-se cada vez mais obtusa
ou discrepante com a sensibilidade plural, como é o caso de afirmações universalizantes
como: “Jesus Cristo é o único salvador”, “Jesus Cristo é o único mediador entre
Deus e a humanidade”, “só a igreja possui a plenitude dos meios de salvação”,
“a igreja é o caminho normal de salvação” etc. Apesar dos esforços
reconhecidamente positivos presentes entre os teólogos cristãos inclusivistas,
fica cada vez mais difícil manter a plausibilidade de certas construções ou malabarismos
teóricos para salvaguardar uma doutrina tradicional que exige um novo salto
qualitativo e abertura a novos horizontes. A atual literatura teológica sobre o
tema do pluralismo religioso mostra a insuficiência das posições exclusivista e
inclusivista e a importância de uma maior ousadia teórica, sem que isto
signifique uma rendição ao relativismo. Vale registrar o importante esforço
feito pelo teólogo jesuíta Roger Haight, no sentido de propor uma elaboração
positiva do pluralismo religioso a partir de uma arejada perspectiva teológica.
Este autor defende a tese de que “a normatividade de Jesus não exclui uma avaliação
positiva do pluralismo religioso, e os cristãos podem considerar as outras
religiões mundiais como verdadeiras, no sentido de que são mediações da
salvação de Deus”[34].
O pluralismo religioso constitui um
desafio fundamental à auto-consciência da igreja. A singularidade eclesial vem
mantida como dado irrecusável, assim como o valor do compromisso específico do
praticante com a sua fé, mas vem reforçada simultaneamente a consciência da
provisoriedade da igreja. A igreja está no tempo, e como tal está sujeita às
ambiguidades da história, mas no tempo assume o importante papel de ser o
“sinal humano do dom sempre contemporâneo do Espírito”[35]. A igreja e as outras
tradições religiosas são “fragmentos” diferenciados que se encontram em
processo dinamizador na história. Entre os fragmentos existe uma
interdependência e um mútuo enriquecimento que podem ser captados e expressos
na dinâmica dialogal, mas não há como prever com clareza e nitidez o horizonte
almejado pela “viagem fraterna”. Cada fragmento deve ser respeitado em sua
irredutibilidade, carecendo de sentido qualquer tentativa de anexação. Para
clarear esta idéia, Christian Duquoc recorre à metáfora da “sinfonia adiada”
(symphonie différée). As religiões representam para ele “lugares de múltiplas
composições” que expressam a riqueza, originalidade e o enígma de cada
fragmento, sendo que o resultado da sinfonia permanece obscuro até uma data
desconhecida. Ninguém domina a forma como a execução sinfônica será realizada,
nem pode captar o seu conteúdo concreto, a não ser na esperança.[36]
Para um dos grandes expoentes
da tradição mística sufi, o mestre andaluz Ibn al-Arabî (1165-1240), a multiplicidade
dos fragmentos têm suas raízes no mistério de Deus. Não há realidade criada que
esteja deslocada do “Hálito” do Compassivo. Cada crença constitui um “vínculo”,
um “nó” que revela uma dimensão do misericordioso mistério de Deus[37]. Cada vínculo constitui
uma “linguagem de Deus”, uma forma que expressa uma compreensão de seu mistério
sempre maior. Em sua visão, a definição de Deus envolve a compreensão de cada
uma das formas de suas teofanias na história[38]. Estas teofanias são
plurais e multifacetadas, sempre se sucedem e se modificam constantemente.
Todas elas manifestam um aspecto do Real ou da Verdade divina, mas nenhuma
delas pode arrogar-se esgotar ou expressar a Verdade em sua totalidade. Há para
Ibn al-Arabî uma grande riqueza na diferenciação das crenças, e aqueles que
desconhecem esta pluralidade acabam condicionando Deus ao seu vínculo
particular, deixando de captar dimensões fundamentais de seu mistério. São
aqueles que estão presos à “Divindade das convicções dogmáticas e prisioneiros
das limitações”, deixando de captar a “Divindade absoluta”, que nada pode
conter[39].
Esta tendência de querer vincular ou
atar a Realidade Última (o Real[40]) às formas categoriais
pode trazer graves consequências, como apontou o estudioso Michael Sells. É a
tendência de afirmar o “deus da crença particular” excluindo ou rebaixando sua
manifestação nos outros sistemas de crenças. A realidade de um mundo marcado
pelo confronto e violências entre as crenças distintas reside justamente nesta
operação de vínculo. Não se pode negar a manifestação verdadeira do Real nos
diversos vínculos, mas querer limitar o real a uma forma particular e negar
suas outras manifestações ocasiona a
negação do Real mesmo em sua infinitude[41].
Esta pistas abertas pela
reflexão de Ibn al-Arabî são bem inspiradoras para a abertura da reflexão
eclesiológica. São reflexões que reforçam a idéia da singularidade e
provisoriedade da igreja, bem como a importância de sua abertura sempre maior
ao mistério do Real, ou seja, a “todas as riquezas da sabedoria infinita e
multiforme de Deus”[42]. Hoje em dia, a relação
entre o cristianismo e as outras religiões deve ser concebida no quadro
orgânico da realidade universal, em termos de “interdependência relacional” e
de “hospitalidade inter-religiosa”. Há que reconhecer a existência de
diferentes e únicas modalidades de encontro da dinâmica humana com o Mistério
divino ou a Dimensão Suprema. O novo modo de ser igreja neste tempo plural deve
ser necessariamente extroverso e dialógico. A identidade da igreja afirma-se
como identidade em processo, como uma “realidade vivente” e disponível aos dons
da alteridade. Não há saída para a igreja senão no caminho do diálogo: dialogar
para não morrer e não deixar morrer. O diálogo é uma “viagem fraterna” que
envolve buscadores de distintas colorações religiosas, desafiados
a ampliar suas crenças, alongar suas cordas, romperem os “nós” que
obstruem seus corações e participar de forma partilhada da visão e da
experiência do Real, que é a única que salva.
[1] Códice di diritto canonico. 2 ed. Roma: Unione editoi
cattolici italiani, 1984, can. 812. Em outro cânon afirma-se com clareza que a
autoridade competente tem o
direito de remover os professores que se desviam da “integridade da doutrina”,
prevista em sua função de ensino numa universidade católica (can. 810).
[3] Jacques Dupuis. Il
cristianesimo e le religioni. Dallo scontro all´incontro. Brescia:
Queriniana, 2001, p. 485. E também p. 484.
[5] No original latino a expressão cunhada é subsistere, que para alguns
teólogos já traduz uma abertura maior com respeito à visão eclesiológica
anteriormente vigente que simplesmente identificava a religião verdadeira com a
igreja católica.
[6] Declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade
religiosa, n. 1. In: Documentos do
Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997, p. 412.
[7] O grupo de bispos reunidos em torno do Coetus Internationalis Patrum,
que envolvia os núcleos mais conservadores do Concílio, reagiu de forma viva à questão da
liberdade religiosa. Cf. Nicla Buonasorte. Tra Roma e Lefebvre. Il
tradicionalismo cattolico italiano e il Concilio Vaticano II. Roma: Edizioni
Studium, 2003, pp. 68-75.
[8] Congregação para a Doutrina da Fé. Declaração Dominus Iesus. São
Paulo: Paulinas, 2000 (cifrada no texto como DI).
[9] Christian Duquoc. “Credo
la chiesa”. Precarietà istituzionale e Regno di Dio. Brescia: Queriniana,
2001, p. 190.
[11] É o caso do teólogo Andrés Torres Queiruga, para o qual
todo aquele que responde honestamente a Deus “tem direito de sentir-se único
para ele e, nesse sentido, ´eleito`”. Ele assinala que a categoria “eleição” é
“perigosa”, pois não só discrimina o amor, como tende reforçar a “soberba e a
vontade de poder para utilizá-la contra os outros”: Andrés Torres Queiruga. Um Deus para hoje. São Paulo:
Paulus, 1998, p. 35.
[12] Manifesto do I Encontro da Assembléia do Povo de Deus.
In: Faustino Teixeira (Org.). O
diálogo inter-religioso como afirmação da vida. São Paulo: Paulinas, 1997,
p. 149.
[13] Tomás de Aquino. Suma
Theol. III, q. 8, a. 3, ad 1.
A expressão “ordinantur” (ordenados)
aparece, já antes da Lumen Gentium, na encíclica Mysticis corporis, de Pio XII
(1943), para sublinhar que aqueles que não pertencem ao organismo visível da
igreja estão ordenados ao corpo místico do
Redentor: DH 3821 (Denzinger-Hunermann).
[14] Claude Geffré. Crer
e interpretar. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 159; Jacques Dupuis. Il cristianesimo e le religioni, p. 395.
[15] Jacques Dupuis. Rumo
a uma teologia cristã do pluralismo religioso. São Paulo: Paulinas, 1999,
p. 485; Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Diálogo e anúncio. Petrópolis:
Vozes, 1991, n. 29.
[16] Jacques Dupuis. Rumo a uma teologia..., p. 526. “A
apreciação de outras religiões como elementos significativos e positivos na
economia do desejo de Deus por salvação introduziu um novo paradigma que é
Reino-centrado, orientado para o futuro e trinitário”: FABC. Teses sobre o
diálogo inter-religioso (3.2). Sedoc,
v. 33, n. 281, jul/ago 2000, p. 59. Ver ainda: Pedro Casaldáliga & José
María Vigil. Espiritualidade
da libertação. Petrópolis: Vozes, 1993, pp. 107-115.
[18] Há, porém, que reconhecer que a expressão reino de Deus (malkuta
jahweh, basileia tou
theou) “não é original nem
específica de Israel, mas existia em todo o Antigo Oriente. O que Israel fez
(...) foi historicizar a noção de Deus-rei segundo sua fé fundamental de que
Javé intervém na história”: Jon Sobrino. Jesus,
o libertador. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 110.
[20] Miguel Marcello Quatra. Regno
di Dio e missione della chiesa nel contesto asiatico. Uno studio sui
documenti della FABC (1970-1995). Dissertatio ad Doctoratum in Facultate
Missiologiae Pontificiae Universitatis Gregorianae. Roma, 1998, p. 497. Jacques
Dupuis igualmente reconhece que esta expressão levanta problema no
contexto da teologia das religiões e do diálogo inter-religioso: Rumo a uma teologia..., p. 456.
[22] III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano.
Puebla. A evangelização no presente e no futuro da América Latina. Petrópolis:
Vozes, 1979, n. 226 (Documento de Puebla).
[23] Roger Haight. Jesus
símbolo de Deus, p. 104; Edward Schillebeeckx.Umanità storia di Dio.
Brescia: Queriniana, 1992, p. 152ss.
[24] FABC. Teses sobre o diálogo inte-religioso (6.3). Sedoc, v. 33, n. 281, 2000, p. 67. Ver
ainda: FABC. Documenti della
chiesa in Asia. Federazione
delle Conferenze Episcopali Asiatiche (1970-1995). Bologna: EMI, 1997, p. 412
(Una teologia della missione per l´Asia).
[25] João Paulo II. Sobre
a validade permanente do mandato missionário. Petrópolis: Vozes, 1991
(carta encíclica Redemptoris
missio). A encíclica estará cifrada no texto como RMI.
[27] Uma das expressões mais claras deste temor está no
documento do Sínodo dos bispos, por ocasião da Assembléia Especial para a
Europa:Testemunhas do Cristo. Petrópolis: Vozes, 1992, p. 14.
[29] Ibidem, p. 155. Duquoc chama a atenção para o que
considera um grave problema: a
“gestão administrativa da verdade” na igreja, que vem “subtraída do controle dos
fiéis para tornar-se propriedade de burocratas escrupulosos ou ambiciosos”. É
esta gestão da verdade que
em sua visão produz o problema do totalitarismo na igreja. Cf. ibidem, p.
119-120.
[36] Christian Duquoc. L´unique
Christ, pp. 235-248. Nesta perspectiva aberta por Duquoc, o Espírito ocupa
um lugar decisivo, enquanto responsável pela maturação de cada fragmento, no
respeito profundo a cada identidade singular. Sua proposta não abole o
significado do testemunho da igreja, mas
previne o risco de qualquer pretensão totalitária de anexação da alteridade. Sob a
presença inspiradora do Espírito, a igreja deixa de assumir a problemática
vocação de “tudo integrar”, passando o reconhecer que as divisões permaneçam
como “lugares paradoxais da esperança”: Ibidem, pp. 240 e 247-248.
[37] Um outro grande místico da tradição sufi, al-Hallâj (857-909),
expressa de forma semelhante o valor da pluralidade das religiões: “descobri
que são os inúmeros ramos de uma única Fonte”: Al-Hallâj.Diwan. Genova:
Marietti, 1987, p. 84 (diwan 62).
[38] Ibn al-Arabî. Le
livre des chatons des sagesses. Tome
premier. Beyrouth: Al Bouraq, p. 116 (le chaton d´une sagesse
transcendante dans un verbe de Nûh – Noé). Para Ibn al-Arabî, todas as
formas religiosas constituem “linguagem de Deus”: Ibidem, p. 118. Uma boa
síntese da reflexão de Ibn
al-Arabî sobre a questão da diversidade das crenças pode ser encontrada na obra
de William C. Chittick. Mundos
imaginales: Ibn al-Arabî y
la diversidad de las creencias. Sevilla: Alquitara, 2003, pp. 253-294 e
321-325.
[39] Ibn al-Arabî. Le
livre des chatons des sagesses. Tome
second. Beyrouth: Al Bouraq, p. 713 (le chaton d´une sagesse incomparable dans
un verbe de Muhammad). Na visão do mestre andaluz, aqueles que conseguem
superar o limite das convicções dogmáticas são capazer de se abrir ao mistério
absoluto e incondicionado de Deus, sendo capazes de reconhecer e valorizar sua presença em todas as
formas de sua teofania: Ibn al-Arabî. Le
livre des chatons des sagesses. Tome
premier, pp. 316-317 (le chaton d´une sagesse du coeur dans un verbe de
Shu´ayb). Ver ainda no mesmo capítulo da obra os comentários feitos a propósito
por Charles-André Gilis: Ibidem, pp. 330-331.
[40] Não é fácil encontrar uma categoria analítica que dê conta do mistério maior e tenha
um grau mais significativo de universalidade. Falou-se anteriormente do limite
da categoria “Reino”. Determinadas tradições religiosas, como o budismo,
preferem “preservar a condição misteriosa do último” e operar com a negação como cifra da
transcendência. Privilegia-se o “silêncio de Deus”. Determinados autores, como
J.Hick, têm preferido trabalhar com a categoria do “Real”, pois é um termo que
encontra correspondência na linguagem cristã (onde Deus vem definido como
“aquele que é” – Ex 3,14), no hinduísmo (o sat do sânscrito) e no islamismo (a
expressão árabe al-Haqq, ou também wujûd,
que expressam a realidade absoluta e não delimitda de Deus).
[41] Michael Sells. Tres seguidores de la religión del amor:
Nizâm, Ibn ´Arabi y Marguerite Porete. In: Pablo Beneito & Lorenzo Piera
& Juan José Barcenilla (Eds). Mujeres
de luz. Madrid: Trotta, 2001, pp. 141 e 152.
[42] Secretariado para os não-cristãos. A igreja e as outras religiões.
São Paulo: Paulinas, 2001, n. 41 (Documento Diálogo e Missão).
(Artigo publicado no livro: L.E.Tomita
& J.M.Vigil & M.Barros. Teologia latino-americana pluralista da
libertação. São Paulo: Paulinas, 2006, pp. 149-167
CONTINUA...............................
* Joenildo Fonseca Leite. Pedagogo, Graduado pela Faculdade Albert Einstein, Brb/DF; Teólogo graduado pela FACETEN/RR; Psicopedagogo, Psicólogo Clínico pós graduado pela Faculdade Darwin/Brb/DF; Servidor Público Estadual/MG; Diretor Acadêmico da FAETEFIL.
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