sábado, 16 de maio de 2015

A MISSÃO E A IDENTIDADE DA COMUNIDADE CRISTÃ NO PRESENTE CONTEXTO HISTÓRICO DO SÉCULO XXI.



A MISSÃO E A IDENTIDADE DA COMUNIDADE CRISTÃ NO PRESENTE CONTEXTO HISTÓRICO DO SÉCULO XXI.

FONSECA, S.C.de S.





INTRODUÇÃO


“Porque o Senhor juntou e uniu entre si, como num nó, certeza do Espírito e de sua Palavra; de sorte que a pura religião e a reverência a sua Palavra se enraízam em nós precisamente quando o Espírito se mostra com sua clareza para fazer-nos contemplar nela a presença divina.” (CALVINO,1597)
“Cristo é o Espírito e o Espírito é o Espírito de Cristo. Um cristão é alguém que participa nesta nova realidade, isto é, alguém que possui o Espírito. ‘Se alguém não tem o Espírito de Cristo, este não é dEle’. Ser um cristão significa possuir o Espírito e qualquer descrição do Cristianismo tem que ser uma descrição das manifestações do Espírito.” (TILLICH, 1957)


            É fato sem contestação que as Igrejas Cristãs atravessam neste século um momento de crise profunda e que por todos os lados observamos uma busca de sentido que as instituições eclesiásticas secularmente consolidadas não se mostram capazes de satisfazer.
            Na tentativa de interpretar esta realidade, teologicamente, muitos teólogos atribuem este estado de coisas a vários fatores destacando, porém, dentre eles, o fato do Espírito Santo não ter sido levado muito a sério na concepção da realidade da igreja desde a Idade Média e, sobretudo, desde o século XI.
            O Espírito Santo e sua ação consoladora, integradora, vivificadora, transformadora e realizadora da vida, segundo a perspectiva do Reino anunciado por Jesus, é apenas citado nas formulações teológico-doutrinais de lá para cá, mas não verdadeiramente assumido como a força decisiva que sustenta e dinamiza a vida da Igreja em seus embates no meio do mundo. Aqui Protestantes e Católicos não se diferenciam. Suas Cristologias mutilaram a ação salvífica do Deus que age harmoniosamente por meio do Filho e do Espírito.
Ao hiperatrofiarem o papel de Jesus Cristo desenharam a figura de uma Igreja que dispensa ou substitui a ação do Espírito. Este se tornou, assim, pouco mais do que um simples figurante com a função de facilitar a intracomunicação das formações eclesiástico-institucionais.
            Em seu precioso estudo sobre o Espírito Santo o teólogo católico José Comblin (1987) assinala que a partir da “luta dos papas contra o Império, no século XI a ação do Espírito Santo sofreu uma dupla redução, ficou ligado à Igreja-instituição cujo conceito se elaborou na época e ficou ligado ao conceito de poder (potestas).
Ou seja, o Espírito Santo passou a ser entendido como que incorporado a institucionalidade eclesiástica. E esta se autocompreendeu como constituída de poderes, o Espírito estava no poder sacramental; no poder administrativo da ordem eclesial (hierarquia); no poder da ordem e da estrutura jurídica da Igreja.
Assim normatizadas as manifestações mais claras do poder do Espírito passaram a ser os sacramentos, os concílios e o poder do Papa.
No âmbito Protestante, da Reforma do século XVI para cá, as coisas não foram muito diferentes. É verdade que tanto Lutero como Calvino tentaram libertar o Espírito da tutela institucional. Mas suas ênfases cristológicas terminaram por reeditar, por outros caminhos e outros discursos teológicos, em quadro semelhante.
É verdade que deram ênfase à liberdade da ação do Espírito, pensaram uma igreja marcada pela provisoriedade, que surge no mundo pelo influxo do Espírito, mas não conseguiram ir fundo nessa intuição que o Evangelho lhes oferecia. A sobrevivência de suas Igrejas Nacionais, a falta de uma percepção histórica mais consistente e a necessidade de libertar o Evangelho do controle burocrático do aparelho eclesiástico medieval  fizeram com que também hiperatrofiassem uma visão cristológica que colocava em segundo plano a ação salvadora, histórica, comunitário do Espírito Santo.
Neste século, felizmente, parece que esta situação está sendo vencida. Mais e mais teólogos e historiadores das igrejas começaram a perceber desde o final do século passado que um outro enfoque precisa ser assumido, a história da igreja deve ser olhada como a história do Espírito Santo e que a dinâmica da vida das diversificadas comunidades cristã tem que ser entendida como expressões históricas dessa missão.
Como assinalou J. Moltmann (1978),
a comunhão da Igreja com Cristo acontece ‘no Espírito’. O Espírito é justamente esta comunhão. A fé percebe a Deus em Cristo, e este perceber é a força do Espírito. Por isso enquanto comunhão histórica com Cristo a Igreja é feitura escatológica do Espírito. (...) a nova vida é uma ‘vida no Espírito’ e a nova obediência um ‘andar no Espírito’. A nova comunidade é nela mesma a ‘revelação do Espírito’ e das forças da nova criação. Por isso, do ponto de vista escatológico, o Espírito pode ser chamado ‘o poder da futureidade’, pois é o ‘dom escatológico’, primícia (Rm. 8.23) e prenda (II Co. 1.22; 5.5) do futuro (...) as forças do Espírito são as forças vitais que, a partir do futuro da nova vida, determinam o presente.

            O Espírito é vento, sopro, hálito, beijo de vida que procede do Criador e vivifica suas criaturas. Feminino no hebraico, neutro no grego e masculinizado no latim, significa força, energia, poder, inspiração. Tudo isso, disposto por Deus (o dom) aos seus filhos e filhas para que suscitem o Seu Reinado no mundo.
Assim, quando falamos da Missão da Igreja estamos falando da missão do Espírito Santo, da Missio Dei, da missão de Deus. Estamos falando desse movimento que conduz a Igreja para fora, para além de seus limites a fim de compartilhar com os outros os dons, ou os carismas, que recebeu do Espírito.
É nesta perspectiva que o teólogo reformado Emil Brunner afirmava que “a Igreja existe para a sua missão assim como a vela existe para ser queimada”.
            No meio de tanto sofrimento e dor de milhões de pessoas em todo o mundo e, particularmente, em nosso país, o grito pelo sentido da vida se faz ecoar desesperado e forte. A não solução de problemas básicos de sobrevivência, a falta de saúde e educação, alimento e proteção, têm levado a imensa maioria dos empobrecidos e descartados pelo sistema que nos domina a buscar alívio e um mínimo de plausibilidade para suas vidas, ainda que momentâneos e precários, na dimensão religiosa.
A incapacidade das estruturas religiosas tradicionais de responder a essa demanda, por tanto tempo reprimida, tem propiciado o ressurgimento de vitalicidades religiosas e espirituais que, por muito tempo, ficaram adormecidas ao embalo das promessas falidas do cientificismo, do nacionalismo, da tecnologia, do secularismo, da idéia do progresso, do bem-estar social, etc.
            Pode parecer contraditório falar de crise no âmbito eclesiástico num momento em que a expansão da vivência religiosa parece empolgar o país. Mas será que o que estamos assistindo reflete o testemunho de uma comunidade cristã profundamente comprometida com as exigências do Evangelho?
É pensando nas contradições que somos forçados a viver, que muitas vezes nos deixam inseguros e nos confundem, que gostaria de partilhar algumas reflexões provisórias sobre a caminhada comum que empreendemos enquanto herdeiros do Protestantismo histórico.
Todos estamos a nos perguntar acerca do papel que devemos e podemos perfilar nestes tempos tão marcadamente religiosos, mas tão pouco afeitos às demandas do Evangelho. Falar do papel da Igreja brasileira na história humana é refletir sobre sua missão, sobre a motivação essencial de sua existência.
A necessidade de reconhecer o perigo de uma tendência a “domesticar o Espírito Santo”. Numa conhecida obra escrita pelo teólogo britânico Michael Green (1977), ele indica o seguinte,
mas não somente a cristandade católica ter sido culpável de buscar esta domesticação do Espírito Santo. Os protestantes não ter sido menos ansiosos de fazer o mesmo já que o Espírito Santo resulta uma influência perturbadora. Portanto, louvasse de lábios para fora, mas na prática, seja confinado à Bíblia, ali onde Ele não possa causar dano nenhum.[...] a Bíblia, portanto, é o lugar mais seguro para o Espírito. Esse é o lugar que lhe corresponde e não na luta da vida real.


            A segunda questão tem a ver com a crítica que Zwinglio faz do que chama “estruturas religiosas tradicionais”, as quais, diz, não são capazes de responder as demandas da sociedade deste século. Neste sentido, acredita que se tenha pela frente um longo caminho de reflexão e autocrítica para saber até que ponto nossas estruturas eclesiais de tradição reformada devem ser modificadas para ser capaz de encontrar respostas a essas demandas. Até que ponto o axioma de ecclessia reformata et semper reformanda não fica somente em uma bonita expressão que se torna impraticável dentro de nossa realidade eclesial e denominacional.


































I  A IGREJA E A MISSÃO

            Segundo Rudolf Weth (1973),
a comunidade cristã se constitui numa minoria exemplar e crítica que tem a função de fermento para a utopia universal do Reino de Deus e não está interessada em aumentar o seu poder, mas em preparar os filhos para o Reino.

            Ao olharmos para a história da Igreja percebemos que desde os seus primeiros tempos se fala e se escreve sobre a Missão. A comunidade cristã, começando com os discípulos, tem vivido num processo permanente de refazimento de sua presença no meio da história humana em função da tarefa que lhe foi designada, a grande co-missão de Jesus.
            E esta é a razão de sua existência. Nesta observação da história percebemos que nos diferentes momentos de crises, transformações profundas, revoluções de todo tipo, de mudanças de paradigmas (Kuhn) que se foram sucedendo no transcorrer da aventura humana, particularmente na parte do mundo afetado pelo Cristianismo, as comunidades cristãs, nas concreções históricas em que se foram transformando, sucessivamente, se viram obrigadas a repensar e reformular seus modelos de presença e atuação nas diferentes sociedades e culturas onde aconteciam.
Este processo de revisão permanente de seu devir histórico em função da razão de sua existência, antevisto e formulado pelos Reformadores do século XVI (ecclesis reformata et semper reformanda), tem sido fonte de não poucos conflitos no interior das estruturas eclesiásticas chegando até mesmo, em alguns casos, a afetar a própria existência da Igreja. Isto quer dizer que Missão é uma idéia-força profundamente dinâmica que determina de forma continuada a vida da comunidade cristã.
            Assim pode-se inferir que a conceituação, a visão e a compreensão do papel missionário que possui uma comunidade que se diz depositária da herança de Jesus Cristo é o que determina sua autenticidade ou não. Na verdade, na medida em que procura ser fiel ao acontecimento fundante de sua existência, tem que se confrontar sempre com mudanças tanto no nível material (economia, forças produtivas, modelos organizacionais, etc) como no nível espiritual (culturas, formas comportamentais, atitudes mentais, religiosidades etc.) que ocorreram no mundo que a rodeia, influenciando-as e/ou sendo influenciada por elas.
            Com isso afirma-se que Missão é a pedra de toque da legitimidade cristã de uma comunidade que se quer Igreja de Jesus Cristo. Ou, como diziam os antigos, Missão é o “articulus standis et cadentis ecclesiae”, um artigo sobre o qual a Igreja, como tal permanece ou cai.
            Se a Missão é parte constitutiva essencial da comunidade cristã no mundo, ou seja, sua razão de ser e existir, esta Missão, no entanto, não é algo que lhe pertença e que dela dependa de forma exclusiva.
O Novo Testamento quando fala de Missão fala basicamente da ação de Deus no meio de sua criação para dar forma e preservar a vida que se originou de sua vontade amorosa. É Deus quem está, pois, desde sempre em missão através de Seu Espírito. A Bíblia nos fala, então, da Missio Dei, na qual a Igreja esta sendo sempre chamada a se insertar.
Recordando uma expressão de S. Irineu, José Comblin (1987) nos diz que,
o Pai age pelas suas duas mãos: o Verbo (Cristo) e o Espírito Santo. As duas mãos são iguais em força e valor. As duas mãos agem em conjunto. Não são idênticas. Cada uma produz uma operação diferente, mas ambas se complementam, e das procede um resultado final. (...) O Filho encarna-se num indivíduo humano e desse modo forma um homem perfeito que ultrapassa infinitamente todos os demais seres humanos. O Espírito Santo, porém, existe na imperfeição de inúmeros indivíduos que caminham para a luz no meio das trevas e buscam uma libertação no meio do pecado que os prende. O Espírito Santo produz um imenso movimento de comunhão e convergência de uma humanidade pecadora, corrupta, vítima do mal. O filho encarna-se num homem que já é a presença do fim desse movimento, antecipa i advento da humanidade nova para a qual caminha a multidão conduzida pelo Espírito Santo.

            É por isso, também, que no Novo Testamento se fala da grande “Co-missão”, isto é, a Igreja é comissionada, é chamada à existência, pela inflexão do Espírito Santo, para comissionar com Deus no mundo.
A Evangelização, ou seja, a proclamação que dá testemunho da Boa Notícia, não é mais que dar continuação ao trabalho missionário de Deus que culminou nos atos poderosos que ele realizou em Jesus Cristo, de quem os cristãos receberam o poder inspirador do Espírito Santo e a tarefa que justificam a sua existência comunitária no mundo. Ou como expressou o Bispo Leslie Newbigin,
o privilégio da vida cristã não pode ser visto separado de suas responsabilidades. O mesmo Cristo que disse ‘venham a mim, todos vocês que estão cansados de carregar suas pesadas cargas e eu lhes darei descanso’ (Mt. 11.28) também disse àqueles mesmos discípulos ‘assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês’ (Jo. 20.21) e lhe mostrou as marcas de suas batalhas contra os governantes deste mundo.

            Donde se conclui que realizar a Missão de Deus no mundo pelo influxo permanente do Espírito de Cristo significa para a comunidade cristã, a ecclesia, aperfeiçoar continuamente o estado de sua relação com Deus, a fonte inesgotável da vida.
O processo missionário, portanto, ao declarar o gozo da vita christiana inseparável das responsabilidades de anunciá-la e prepará-la para todos, implica numa auto-evangelização continuada dos próprios partícipes da Missio Dei.
            Isto tem a ver com o fato de que se bem a mensagem evangélica é destinada a todos os homens e mulheres deste mundo, isto apenas indica a direção da Missão, recaindo a responsabilidade do testemunho humanizador da vida do mundo sobre os ombros da comunidade cristã na medida em que testifica a vontade amorosa de Deus para com todas as suas criaturas. Ou para dizer o mesmo com as imagens usadas por Jesus, quando esta comunidade, no fiel cumprimento de sua vocação histórico-divina, se torna luz que orienta a marcha de todos para uma vida plana (humana, livre, justa) ou se torna o sal que preserva e dá gosto à vida de todos.
Moltmann (1978) neste ponto aclara com a seguinte reflexão,
Entender teologicamente a Igreja missionária  num horizonte universal quer dizer entendê-la no horizonte da Missio Dei. A missão abarca a totalidade da Igreja e não apenas algumas de suas partes ou alguns membros enviados por ela. (...) a missão abarca todas as atividades que contribuem para libertar o homem de sua escravidão na presença do Deus que se aproxima, da sua miséria econômica até a sua situação de pecado. A evangelização é missão, mas a missão não se reduz a ser evangelização. (...) a missão messiânica global da comunidade responde à missão messiânica de Cristo e à missão carismática do Espírito, ‘que é derramado sobre toda a carne’. Se a igreja entende a sua missão no marco da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, se cobrirá seu lugar e sua função no interior dessa história. (...) Ela é, com todas as suas atividades e passividades, um fator dentro da história do Reino de Deus. Não se trata de sua própria propagação, mas da propagação do Reino de Deus. Sua finalidade não é a própria glorificação, mas a glorificação do Pai pelo Filho no Espírito. O conceito missionário da Igreja leva a uma Igreja aberta ao mundo na missão de Deus, já que conduz a uma concepção trinitária da igreja a partir da história de Deus com o mundo.


1.1  Pistas para uma nova atitude missionária

            Neste início do terceiro milênio deparamo-nos com uma avalanche de acontecimentos que se sucedem, se misturam e transtornam o contexto histórico que nos toca atravessar, a queda do socialismo real; o fantástico desenvolvimento da tecnologia capitalista; o perverso incremento do sistema de acumulação de capital às custas da própria sobrevivência  da humanidade, gerando áreas cada vez maiores de pobreza e de exclusão de milhões de pessoas (mesmo nos países mais prósperos) e destruindo de forma massiva a natureza; a adoção de um modelo econômico tido como etapa final da capacidade produtiva e organizacional dos seres humanos (Fukuyama);  a decretação do mercado total como o instrumento definitivo para a solução dos conflitos entre os povos e nações; o uso indiscriminado da força como argumento definitivo  da racionalidade dominante; etc.
            Em outras palavras, vivemos uma nota etapa dentro do processo capitalista que mundializa os mercados, as finanças, a informação, a comunicação, os valores culturais, rompendo as fronteiras territoriais e dando origem a uma ordem internacional com relações interdependentes e, supostamente, oferecendo oportunidades iguais para todos os países envolvidos, como assinala L. E. Wanderley (1997),
a  globalização apresenta uma dupla face, interligada: uma, de um mito ideológico que tudo dirige; outra, de uma tendência objetiva – ambas trazendo conseqüências. O mito traz as idéias de rompimento de todas as fronteiras, de uma nova ordem mundial... de um estado único (“O grande irmão?”), de uma nova racionalidade, segundo a qual tudo deve ocorrer de uma determinada maneira – o pensamento único – por obra e graça dela. Pelo lado dos condicionamentos  e suas implicações destacam-se: a emergência de novas relações e universalização de valores; a concentração do poder econômico; o predomínio do capital financeiro e especulativo; o aumento das disparidades de renda entre o Norte e o Sul; o domínio tecnológico e científico de certos grupos localizados nos países ricos; a imposição de programas de ajuste e de reformas por parte de organismos internacionais (desregulação do Estado, principalmente em políticas sociais, combate aos déficits públicos, privatizações, etc.); barreiras aos movimentos migratórios, para citar alguns. Penso que ela é um dado da realidade, mas que não pode ser demonizado e nem aceito nas condições postas.

            Por outro lado, entre os empobrecidos e vitimizados por este estado de coisas também nos deparamos com situações negativas que precisam ser articuladas e denunciadas, pois embora vítimas e, talvez, por isso mesmo, revelam em suas atitudes o quanto introjetaram dos valores (ou antivalores?) impostos sobre eles. Por isso não devemos e nem podemos romantizá-los apesar do imenso sofrimento em que estão sendo lançados. Assim, completando o quadro da situação que atravessamos, devemos tomar nota de que entre os empobrecidos, vitimizados pelo “ Estado de Mal-estar Social” aperfeiçoado pelo Neoliberalismo existe também: competição, numa espécie de situação de “salve-me quem puder”; absolutização de visões ideológicas, de compreensões religiosas e de metodologias de ação; manipulação de pessoas, de interesses políticos imediatos e de sentimentos religiosos; dogmatismo nas análises e interpretação dos fatos; ambigüidades no uso do poder em todas as suas manifestações e formas; tentações de cooptação, etc.
            O teólogo católico Johann-Baptist Metz (1989) classifica este processo em que nos encontramos como um dos resultados do que ele denomina de “europeização profana do mundo”. Diz ele,
com sua técnica e sua industria da cultura e da informação a racionalidade ocidental envolve sempre mais o mundo inteiro, modificando não apenas a maneira de agir, mas também, ao que tudo indica, as mentalidades dos povos. É como se os povos e culturas não-europeus estivessem caindo num ‘torvelinho eurocêntrico”


Fazendo eco às conclusões desenvolvidas, nesse sentido, por H. M. Enzensberger, mas atento aos exageros presentes nestes tipos de análises, Metz (1989) sublinha o fato de que, “os povos e culturas não-ocidentais sucumbiram a uma enorme pressão de adaptação ao processo de europeização profana do mundo.”
Trazendo estas reflexões para o contexto brasileiro não podemos deixar de nos valer da original e criativa análise de nossas origens desenvolvida pelo antropólogo Darcy Ribeiro, pois não só responde aos temores de Metz com respeito à existência de suficiente identidade cultural e capacidade de resistência ao processo de expansão/dominação da civilização norte-atlântica como uma nova utopia para o Brasil.
Diz Ribeiro (1996),
que é o Brasil entre os povos contemporâneos? Enquanto povo das Américas contratas com os povos-testemunha, como o México e o altiplano andino, com seus povos oriundos de altas civilizações que vivem o drama de sua dualidade cultural e o desafio de sua fusão numa nova civilização. Outro bloco contrastante é o dos povos transplantados, que representa nas Américas tão só a reprodução de humanidades e paisagens européias. Os Estados Unidos e Canadá são de fato mais parecidos e mais aparentados com a África do Sul e com a Austrália do que conosco. A Argentina e o Uruguai, invadidos por uma onda gringa que lançou quatro milhões de europeus sobre um mero milhão que havia devassado o país e feito a independência, soterrando a velha formação hispano-índia, são outros transplantados. Só é de perguntar porque, com a economia igual e até mais rica de produção de cereais, de carnes e de lãs, não conseguiram a prosperidade da Austrália e do Canadá, que se enriqueceram com muito menos? Será o velho Cromwell e a institucionalidade por ele criada que ainda regem o norte, que fazem a diferença?
Os outros latino-americanos são, como nós mesmos, povos novos, em fazimento. Tarefa infinitamente mais complexa, por que uma coisa é reproduzir no além-mar o mundo insosso europeu, outra é o drama de refundir altas civilizações, um terceiro desafio, muito diferente, é o nosso, de reinventar o humano, criando um novo gênero de gentes, diferentes de quantas haja. (...) nós brasileiros, nesse quadro, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito. Já que aqui a mestiçagem jamais foi um crime e ou pecado. Nela formos feitos e ainda continuamos fazendo. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem por séculos sem consciência de si afunda na ninguendade. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros. Um povo, até hoje, em ser, na dura busca de seu destino. Olhando-os, ouvindo-os, é fácil perceber que são, de fato, uma nova romanidade, uma romanidade tardia e melhor, porque lavada em sangue índio e sangue negro (...) O ruim aqui, e efetivo fator causal do atraso, é o modo de organização da sociedade, estruturada contra os interesses da população, desde sempre sangrada para servir a desígnios alheios e opostos aos seus. Não há, nunca houve aqui, um povo livre, regendo seu destino na busca de sua própria prosperidade. O que houve e o que há é uma massa de trabalhadores explorada, humilhada e ofendida por uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente.


            O autor aponta aspectos importantes com relação a matriz religiosa. Nesse contexto, parece-nos que devemos pensar mais na incidência da tese de Bittencourt Filho (1992), quem segue as observações de Carlos Brandão no sentido de que “o sucesso de uma proposta no campo religioso brasileiro é diretamente proporcional a sua proximidade com a matriz”. A pergunta é, então, até que ponto a decadência das igrejas históricas responde a essa tese? Esta é uma tarefa futura que acredito importante para nós.

1.2  Preces da religiosidade mestiça

            Durante o desenvolvimento e consolidação do complexo cultural brasileiro destaca-se a constituição de um campo religioso que se desdobra em múltiplas facetas tendo, no entanto, uma origem comum, o substrato religioso-cultural gerado no desenrolar da formação da nacionalidade brasileira que José Bittencourt Filho (1992) denomina de matriz religiosa.
Diz Bittencourt Filho (1992),
uma visão panorâmica do campo religioso mostra-nos alguns traços marcantes, convergências e condutas padronizadas, que nos fazem inferir a presença efetiva de um substrato religioso-cultural. A este denominamos aqui, matriz religiosa. A expressão deve ser entendida em seu sentido lato, isto é, uma complexa interação de conceitos e idéias religiosas que se amalgamaram num processo multissecular, e, em decorrência de onde nasce a mentalidade religiosa média dos brasileiros, independentemente da situação de classe na qual se encontram. Vale dizer que essa mentalidade expande sua base social por meio de processos incontroláveis para num determinado momento histórico, incorporar-se ao inconsciente e ao consciente coletivos.

            Ao perguntar-se pelos componentes principais que, historicamente, se foram fundindo para dar origem a essa base matricial da “Weltanchauung” nacional, assinala,
com os colonizadores portugueses chegam o Catolicismo ibérico – reconhecidamente peculiar – e a Magia européia. Aqui se encontram com as religiões indígenas, cuja força irá impor-se, sobretudo por meio da mestiçagem. A escravidão trouxe consigo as religiões africanas que, devido às adversidades, acabariam por engendrar um vasto sincretismo. No século XIX dois novos sincretismos se acrescentam: o Espiritismo europeu e alguns elementos do Catolicismo romanizado.

            Segundo este autor os traços mais caracterizados desta matriz religiosa são o utilitarismo e o infantilismo. Para o primeiro a religião seria apenas uma instância de proteção sobrenatural e a fonte permanente de bens simbólicos a serem conseguidos mediante o cumprimento de um receituário aparentemente simples de obrigações e deveres, numa relação de troca(s) com a(s) divindade(s). Tais procedimentos se revestem de um caráter essencial-mente de magia, ainda que não reconhecidos como tais.
            O traço do infantilismo, por sua vez, confia a experiência religiosa ao campo da irracionalidade, não permitindo nenhuma ligação entre aquela e a existência cotidiana, a não ser as relativas à superação de dificuldades materiais e pseudo-espirituais. Em ambas dimensões a religião é vista e vivida como uma experiência terapêutica e uma fonte de significação para a totalidade da experiência humana.
            Ambos os traços características desse matriz religiosa escamoteiam a ética que é reduzida a um moralismo meramente ritualista e inconseqüente. Apesar desta apreciação negativa dos modos básicos de expressão da matriz religiosa Bittencourt Filho (1992) assinala, no entanto, que
Como fruto de um longo processo histórico constitui-se numa expressão ao mesmo tempo, de resistência e criatividade: resistência aos conteúdos verticalmente impostos pelas instituições religiosas e geralmente dissociados dos imperativos da existência; criativa por tratar-se de um exercício da autonomia humana no trato com a transcendência.


            Com essas observações o autor faz eco à observação de Carlos R. Brandão (1983) que, depois de investigar as mais diferentes formas populares de expressão religiosa conclui, em relação ao Catolicismo do povo, o que já havia sido observado em outras expressões da religiosidade popular:
o Catolicismo do povo brasileiro é sempre um sistema dissidente de um Catolicismo de ‘Igreja’, e os seus agentes próprios são sujeitos recrutados entre os das classes subalternas que aprenderam direta ou indiretamente ‘com os padres’ o que depois reaprenderam com a classe.


            Da percepção disto que denominou de matriz religiosa, da observação de sua incidência nos mais diferentes fenômenos religiosos que conformam o universo cultural-religioso brasileiro Bittencourt Filho (1992) avança uma tese singular:
o sucesso de uma proposta no campo religioso brasileiro é diretamente proporcional a sua proximidade com a matriz, desde que essa proximidade venha envolvida numa linguagem e numa pátria condizentes tanto com as demandas espirituais das maiorias como com os determinantes sociológicos que as acompanham. Em contrapartida o distanciamento da matriz, pelo menos no plano consciente, pode ter como efeito o esvaziamento de uma proposta religiosa até o seu desaparecimento. Em parte esta seria a causa da decadência das igrejas históricas.


            Ao inferir uma pesquisa como esta e de buscar de forma sistemática caminhos teóricos mais abrangentes para a compreensão dos fenômenos, cada dia mais inusitados, que se vão produzindo no interior do campo religioso brasileiro, este autor lança as bases para uma interpretação de tais fenômenos que, de fato, propiciem a articulação de uma estratégia de compreensão e ação conseqüentes, capaz de oferecer alternativas reais ao quadro geral da religiosidade que hoje aprisiona grande parte do conjunto da população brasileira.
            Nesta parte da pesquisa gostaria fazer duas colocações.
            A primeira tem a ver com a importância de distinguir e relacionar Igreja e Reino de Deus. Acredita-se que muitos problemas surgem de uma falta de clareza nestas questões. É necessário distinguir essas realidades, mas ao mesmo tempo relacioná-las. Como explica Hans Küng (1984) em sua tão importante obra La Iglesia:
não há identidade (Igreja = reino de Deus) porque o reino de Deus no sentido do Novo Testamento é a Basiléia mundial, definitiva e escatológica. E não há continuidade (o reino de Deus nasce da Igreja), porque o reino de Deus não nasce de uma evolução orgânica, nem de um processo de amadurecimento e penetração, mas da nova intervenção de Deus, não dedusível e consumadora. 


            O que é o que distingue a Igreja do Reino? Talvez Wolfhart Pannenberg (1974) tenha razão quando diz que o que distingue a Igreja do Reino radica em que a Igreja é provisional, embora o Reino é eterno. E acrescenta,
isto significa que a existência da Igreja, como uma instituição especificamente religiosa, só se justifica pelo fato de que as formas da vida política da sociedade não possam garantir nem para o presente nem para um futuro previsível a plenitude definitiva da essência humana, da determinação humana, e este tanto no que respeita à vida dos indivíduos particulares como à convivência dos grupos.


            Mas assim como distinguimos entre Reino e Igreja, devemos também procurar ver como se relacionam. Aplicado a questão da missão, é impossível definir a missão sem referencia ao Reino. A Igreja tem uma missão, e essa missão tem seu alvo, seu paradigma, seu modelo no Reino de Deus. É a partir do Reino como utopia de Deus, que a Igreja pode conduzir-se no mundo e realizar a missão que Deus lhe outorgou.
O Reino, cuja natureza é escatológica, nos permite não identificar tão facilmente os sistemas e projetos da história com o Reino de Deus. Este paradigma nos permite evitar cair tão facilmente em fundamentalismos de qualquer natureza. Se algo tem de útil à crise atual de ideologias é que nos ajuda a ser precavidos para não identificar com superficialidade um sucesso histórico com o Reino de Deus.
O Reino continuará sendo, além de nós, um alvo, um ideal, um telos que indica a Igreja o rumo que deve tomar ou a norteia para a realização da vontade salvadora e transformadora de Deus com a humanidade e com seu mundo.
         A segunda coisa que parece importante destacar nesta seção de Igreja e Missão, é a expressão que Zwinglio usa com referência a “missão como pedra de toque da legitimidade cristã de uma comunidade que quer ser Igreja de Jesus Cristo”.
Mas chama-se a atenção no sentido de que mais que uma teoria da missão, ou um artigo dela, necessitamos uma praxis da missão, ou seja, essa “pedra de toque” não deve ser compreendida como uma doutrina missionária, que tampouco devemos esquecer, mas uma prática missionária, porque já através da teologia da libertação se nos recorda que a ortopraxis deve ser o critério de análise e não a ortodoxia.
Trata-se de saber em concreto se nós estamos realizando a missão e sendo eficazes como proclamadores do Reino e instrumentos para facilitar sua presença transformadora em nosso mundo. Neste contexto, também parece importante o que diz Zwinglio citando a Comblin no sentido de que “O Espírito Santo produz um imenso movimento de comunhão e convergência de uma humanidade pecadora, corrupta, vítima do mal”.
Acredita-se que os pronunciamentos do Papa João Paulo II, seguidos por outros similares de parte de líderes judeus e islâmicos, constitui, talvez, esses signos da ação do Espírito Santo conduzindo à convergências que superem as antigas e estéreis divergências na história.
            Sempre dentro dessa seção, é importante destacar a citação da obra de Moltman (1978), porquanto indica que a missão da Igreja tem a ver, não somente com “almas” ou, ainda “pessoas”, o qual já é um avanço, mas com toda a realidade humana e da criação.
Por tanto, a presença do Reino de Deus não deve ser buscada somente em experiências espirituais ou de salvação pessoal, mas também na superação da miséria econômica e no pecado social que as economias de mercado e a globalização não somente não solucionam, mas que em alguns sentidos aprofundam.
Infelizmente as igrejas até este século, sobre tudo as que ficam sob influência do fundamentalismo americano, ter sido reducionistas até o ponto de fazer uma equação entre evangelização e missão quando na realidade a primeira é somente uma parte da missão, mas não esgota a missão.
Esta missão é missão messiânica porquanto quem a começou foi Jesus de Nazaré como o Messias, é carismática no sentido de que o Espírito Santo a dirige e a dinamiza e seu alvo é a glória do Pai. Em suma, se trata de uma missão trinitária onde o Pai é glorificado pela obra do Filho e no poder e comunhão do Espírito Santo.
















II  REPENSANDO A AÇÃO MISSIONÁRIA


         Pensar e rearticular a vivência eclesial numa situação como a até aqui descrita exige dos cristãos uma atitude de profunda humildade frente ao que temos sido até agora e também de total dedicação Àquele que, a partir da fé, afirmamos como o único capaz de abrir-nos o futuro. Como reorientar o trabalho missionário de forma a nos apresentar no interior de nossa sociedade como comunidades de esperança num tempo de tanta dor, frustrações, violência e destruição da dignidade humana?
Podemos afirmar com tranqüilidade que as experiências fundantes da igreja dos primeiros tempos tem correspondência com nossas atuais estruturas e formas de pensar, agir e existir enquanto comunidades do Cristo ressuscitado?
Todos sabemos que a fé que anima a comunidade cristã é e continuará sendo um chamado (vocatio) à presença, principalmente, quando as situações históricas se apresentam com horizontes fechados e lançam milhões de pessoas na noite escura do desespero e, no melhor dos casos, do conformismo fatalista. Que fazer então? Sugerem-se três atitudes que, podem ajudar a caminhar.
2.1  Discernir a ação do Espírito

            A história das comunidades cristãs está cheia de exemplos que nos falam de sua submissão à ação do Espírito que mantêm abertas as possibilidades da vida apesar da força e do poder das estruturas materiais e espirituais que foram sendo articuladas ao longo da história impedindo a dignidade da vida para as filhas e filhos de Deus.
            Mas para que a esperança triunfe é necessário discernir onde e como o Espírito está agindo. É necessário que as comunidades do Cristo crucificado e ressuscitado não se deixem abater pelo temor, pelo engano e pelo desânimo gerados pelo sofrimento.
            Ao contrário, devem resistir revestindo-se, enquanto comunidades de fé, da disciplina do arcano, de que falava D. Bonhoeffer, do produzir os frutos do Espírito (Gl. 5. 22,23) que hoje se constituem na fonte de uma contracultura que rechaça a visão de mundo e os supostos valores do sistema de morte no qual nos encontramos. Somente a partir de uma atitude desta índole poderão se constituir em sinal do Reino de Deus que está a caminho.
            Como destaca J. Moltmann (1978),
a comunhão da Igreja no tempo e ao longo dos tempos é, antes de tudo, uma proposição de fé. A Igreja é preservada em sua identidade e continuidade pela fidelidade de Cristo a suas promessas e à presença do Espírito Santo. O sacrifício de Cristo e sua contínua intercessão junto ao Pai lhe dão a certeza de que ‘as portas do inferno’ não prevalecerão contra ela e de que ‘permanecerá até o fim’ (Lc. 22.31,32).


            Discernir o Espírito implica no reconhecimento do outro, culturalmente distinto, naquilo que o caracteriza como diferente. É isto que a herança bíblica que se diz albergar no interior de nossas estruturas eclesiásticas nos ensina.
            Trata-se, na verdade, da busca de novas relações humanas fundadas no primado da liberdade e da justiça na sua plenitude em todos os níveis de nossa experiência humana. O movimento do Espírito em meio a criação suscita a submissão de tudo e de todos à vontade salvífica de Deus.
Na prática de Jesus desponta uma nova hermenêutica onde o elemento central se constitui na afirmação do direito inalienável do outro ser e permanecer o outro que é.
            Nas muitas parábolas e nos inúmeros encontros de Jesus com as mais diferentes pessoas sobressais o convite à e o convívio com aqueles e aquelas que são estranhos ao seu contexto racial, social e cultural-religioso com o destaque para o reconhecimento e a aceitação destas diferenças.
            E isto só é possível, segundo Metz (1989), porque o Espírito está sobre ele e lhe permite reconhecer a limitação etnocêntrica e sócio-política de auto-afirmação da tradição cultural-religiosa a que pertencia.
            Nas palavras de J. Comblin (1987), o Espírito não mantém os seres humanos isolados em si próprios, mas abre-os para uma comunhão universal que tem o seu centro em Jesus. Por sua vez Jesus não age sobre outros homens simplesmente por meios humanos, o que produziria uniformidade, submissão, renúncia ao próprio de cada um. Jesus reúne a humanidade de cada um, de cada indivíduo e cada coletividade humana.
            Devemos cultivar o discernimento para olhar a presença do Espírito no mundo, evitando tanto a resignação como o facilismo. Devemos evitar atitudes maniqueístas que nos conduzem a rejeitar sistematicamente todo o que acontece no campo religioso pentecostal e carismático como se não existe nada resgatável nesses âmbitos.
Não devemos permitir que as distorções e reducionismos gnósticos e místicos que também se dão nesses âmbitos invalidem a verdade da importância da fé, do encontro com Deus e a experiência com Deus pelo Espírito Santo.




2.2 Reconstruir a Comunidade de Fé.

            As concreções históricas das institucionalidades eclesiásticas, isto é, as formas sócio-culturais que dão visibilidade histórica às igrejas, especialmente, no nosso contexto, perderam grande parte de sua significação e consistência identitária.
Por outro lado, cumpre observar que o campo religioso brasileiro, como salta à vista, é cada vez mais pluralista e conflitivo nas mais diversas direções. Mas é possível afirmar que, em que pesem as divergências históricas de origem, as institucionalidades eclesiásticas que hoje atuam entre nós divergem ou convergem entre si em termos de suas relações diretas ou indiretas, conscientes ou inconscientes com a estrutura simbólica gerada pela estruturação material da sociedade brasileira.
            É evidente que existem contradições de variado tipo opondo igrejas umas contra as outras. Mas o decisivo para o presente e o futuro de nossa sociedade é a postura fundamental dessas institucionalidades frente aos modos de exercício do poder, em todas as suas formas, no interior da sociedade brasileira.
            Numa cáustica descrição panorâmica do Protestantismo brasileiro o Bispo Robinson Cavalcanti (2000), expressa com crueza o status quaestionae da realidade de nossas igrejas,
Constata-se hoje, lamentavelmente, uma tendência claramente sectária, arrogante, iconoclasta e agressiva por parte dos grupos novos e independentes, na rejeição do passado e dos outros. Nas últimas décadas, consolidou-se entre nós a hegemonia do modelo fundamentalista (aquele que ‘identifica sua própria posição com o Absoluto, e assim se absolutiza conterá outras posição teológicas e sociais, H. Schäffer) versus ‘o resto’ (liberais, neo-ortodoxos, liberacionistas, evangélicos progressistas, etc.), fortalecendo-se o espírito de intolerância e a ideologia pequeno-burguesa de inspiração norte-americana (sulista). Muitos ainda confundem  a Igreja com o Reino, e a participação nos negócios (políticos) deste mundo vai encontrar de absolutos isolacionistas (neo-essênios) a adesistas-clientelistas (neo-herodianos), passando pelos neoteocratas. Perdemos a histórica bandeira do laicismo (separação Igreja-Estado), e os progressistas (embora crescentes e mais articulados) continuam minoritários e periféricos. (...) falta um projeto histórico que ultrapasse as meras mudanças nos indivíduos.


            Frente a uma situação como esta não temos como não falar de uma nova diáspora, como profetizava Richar Schall nos anos sessenta, para sublinhar o fato de que subsistem verdadeiras comunidades cristãs no interior das mais diferentes institucionalidades eclesiásticas que, sensíveis ao sopro do Espírito, sofrem as conseqüências de sua fidelidade ao evento fundante da fé que experimentam e procuram expressar.
            Isto quer dizer que devemos voltar às experiências relatadas na Bíblia não apenas para renovar nosso entendimento dos fatos ali registrados como para energizar a esperança que nos anima e descobrir novas pistas que nos ajudem a relançar nossas possibilidades missionárias-pastorais para outras e mais pertinentes dimensões.
Na medida em que nos deixarmos criticar pelos elementos constitutivos das experiências fundantes de nossa fé é certo que seremos capazes de superar o cativeiro político-ideológico e cultural no qual nossas igrejas quase sempre permanecem encerradas.
            Percebe-se a necessidade de duas recriações, uma delas é recriar a Igreja a partir de uma busca de um projeto histórico alternativo aos vários que Zwinglio Dias menciona a partir das observações do bispo Robinson Cavalcanti porque serve de pouco se simplesmente criticamos os modelos fundamentalista, isolacionista, neoteocratas, etc., sem propor um modelo alternativo superador deles.
            E a segunda coisa que parece que mais que “energizar a esperança”, como expressa Zwinglio, trata-se mais bem de “recriar a esperança”, já que Fukuyama, conduz em forma quase inevitável a uma situação de resignação, de fatalização, de perda da esperança.
            Aqui temos uma tarefa maior que permita recriar, pela ação do Espírito Santo, a esperança perdida. Mas não será possível recriar a esperança se não recriamos a Igreja, no sentido de deixar de ser uma instituição de culpabilização sistemática para ser o que deve ser no plano de Deus, uma comunidade de amor, de vida, de liberdade e de esperança em Deus que chama à existência as cousas que não existem (Rom. 4.17) e que, por isso, nos convida a esperar nele contra a esperança (Rom. 4.18ª). A Igreja é, na terra, a única comunidade capaz de recriar a esperança através da utopia do Reino de Deus.

2.3 Assumir a proscrição como um valor evangélico decisivo

            Voltar  os olhos para o acontecimento frontal da fé cristã significa voltar-se para Jesus Cristo e sua visão do Reino de Deus. A partir de sua perspectiva profético-escatológica Jesus dava ênfase ao fato de que a salvação escatológica e a recuperação da integridade de Israel, enquanto povo escolhido de Deus, já estava disponível. “O Reino de Deus já está entre vocês” (Lc. 17.21) dizia ele.
Esta perspectiva o fez afastar-se da religiosidade dominante na Palestina greco-romanizada de então. Como assinala Paul Suess (1994),
historicamente, Jesus de Nazaré não causou ‘problemas’ ao povo simples. Pelo contrário, Jesus identificou-se com os pobres, com os famintos e injustiçados, e acolheu os outros/excluídos, a mulher adúltera, o/a samaritano/a, o centurião pagão. Os destinatários preferenciais de Jesus entenderam imediatamente: ‘este Nazareno veio para ajudar-nos a solucionar os nossos problemas. Ele veio ensinar – a Israel e Samaria, a judeus e pagãos – um caminho de felicidade e bem-aventuranças’. Para Jesus de Nazaré não se colocou, historicamente, o problema da ruptura cultural e religiosa com o seu povo, mas sim o da incoerência da classe dominante no interior de Israel. Gente aos outros – publicanos, pecadores, leprosos, samaritanos, pagãos, mulheres numa sociedade patriarcal – Jesus nunca mostrou atitudes proselitistas, mas revelou uma grande compaixão humana. Não cobrou a circuncisão, mas a fé e a conversão, isto é, a coerência segundo o seu próprio ‘sistema referencial’.


            Desde que se separou do grupo de seguidores de João Batista e constituiu sua própria comunidade, Jesus se encontrou na condição de um excluído, de um proscrito no meio de seu próprio povo. E esta condição não só lhe foi imposta por seus adversários – os que administravam o poder político-religioso simbolizado pela autoridade do Templo e da Torah – como foi, acima de tudo, assumida conscientemente por ele mesmo.
            Recuperando e reinterpretando a tradição profética não aceitou  reducionismo formalista e religioso monitorado pelos grupos que detinham o poder na esfera do sagrado no meio do povo.
            Trabalhando com os mesmos símbolos que davam sentido e orientação para o povo Jesus ofereceu, entretanto, uma interpretação diferente, que recuperava a autenticidade da tradição israelita, conspurcada e pervertida pela manipulação interesseira dos que detinham o poder.
            Procurou mostrar, nas mais diferentes situações, que o locus do poder e da presença de Deus não é constituído pelas estruturas que conformam o culto, nem pelo corpo de doutrinas, nem pelos lugares ditos sagrados, mas se encontra nas próprias pessoas, Suas criaturas.
            Com isso provocou um inversão total no sentido da vida religiosa da época. Não que ele não desse importância ao Templo e à Lei, mas procurava mostrar que tudo isso só tinha sentido e razão de ser se contribuísse para a humanização da vida de todos. Esta atitude estava em perfeita sintonia com a tradição bíblica anterior.
            Como assinala Moltmann (1978),
É bem claro que, para a mentalidade bíblica, particularismo e universalismo, chamamento do humildes e glorificação de todos, não se excluem de modo algum entre si. Da mesma maneira que é justificado todo aquele que crê, mas ‘primeiro os judeus, em seguida os gregos’ (Ro. 1.7) todos os homens serão glorificados por meio da vinda de Deus, mas isso começa com a chamada dos desprezados e a ‘elevação dos vales’. Por isso esta parcialidade deve ser entendida de um modo inclusivo e aberta à universalidade.


            A crítica de Jesus às práticas religiosas dos fariseus, dos saduceus, dos essênios e dos grupos profético-revolucionários partia deste princípio fundamental, o poder e a presença de Deus se revelam nas pessoas e, entre estas, naquelas que menos contavam para a sociedade da época. É verdade que a sua proclamação da instauração do Reino era destinada a todos.
            Ninguém era esquecido, primordialmente, a três classes de pessoas: aquelas que eram oprimidas e desprezadas pela estruturação sócio-política e religiosa daqueles dias, ou seja: os empobrecidos, os destituídos de tudo, excluídos do convívio social e, portanto, proscritos da sociedade oficial; os enfermos, os aleijados, os excepcionais, as mulheres, etc.; os cobradores de impostos, os pecadores em geral (publicanos), as prostitutas.
Importa sublinhar aqui o fato de que foi com e a partir destes significativos seguimentos da população palestina que Jesus organizou seu movimento para anunciar a esperança de uma nova ordem e um novo tempo para todos no mundo criado por Deus.
Ao criar uma comunidade de iguais entre os desprezados pela sociedade regular, aqueles que foram considerados descartáveis e supérfluos, segundo a racionalidade perversa de uma estruturação social que privilegia alguns à custa da vida da maioria, Jesus assumiu com eles a sua própria condição de excluídos e proscritos, rompendo dogmatismos e superando preconceitos, de há muito presentes nas práticas religiosas geridas pelos intérpretes oficiais da Lei e monopolizadores do culto. Esta perspectiva da ação salvífica de Jesus coloca desafios tremendos para a Igreja em sua trajetória histórica.
Não levar em conta, com a seriedade devida, o sentido histórico-salvífico da opção de Jesus pela proscrição como expressão de sua solidariedade para com os desprezados e indignos “segundo o mundo”, significa para a Igreja a sua autodestruição enquanto “comunidade do Senhor crucificado e ressuscitado”
A verdadeira comunidade de Jesus é aquela que assume a “figura do escravo”. É a “plebe de Deus”. Neste sentido diz Moltmann (1978),
ela tem de ser a Igreja do povo (óklos). A atitude aristocrata de querer ser ‘a igreja para o povo’ lhe está proibida. ‘Cristo pertence aos humildes e não aos soberbos’ (Clemente Romano). Somente através de uma identificação com ‘a morte de Jesus’ se nos revelará a ‘vida com Jesus’. Esta ‘cruciformidade’ da Igreja não pode ser alcançada mediante uma mística afastada do mundo. Para Paulo esta era ‘corporal’ (II Co. 4.10) e pública, surgida dos ataques, menosprezo e das perseguições sofridas pelo apóstolo. Para o Cristianismo ela deverá se revestir também de uma forma corporal e pública, pois surge do apostolado público e aberto e da tomada de posição pública em favor dos extraviados e dos desprezados. Esta é, portanto, uma mística de Cristo, viva, presente no mundo e, por conseguinte, também política. De outro modo, como poderia manifestar-se a vida do Ressuscitado ‘em nossa carne mortal’?

                Se neste século não nos custa perceber a que ponto chegou o tresloucado coração humano (esta fábrica de ídolos, segundo Calvino) ao desenvolver uma colossal capacidade destrutiva capaz de submeter milhões aos interesses de uma minoria, os cristãos, com suas instituições eclesiásticas, seus movimentos e suas organizações, não tem outra alternativa que se deixar seduzir por aquele que no seu momento histórico e sob a inspiração do Espírito viveu da utopia de um Reino de Justiça e Liberdade, expressando, sem disfarces e com irreverência, seu desprezo pelos valores de uma sociedade mercantilizada e assumindo o paradoxo de sua vida até às últimas conseqüências.
Como herdeiros de seu movimento que moveu a história humana e plantou um sinal de vida permanente em seu horizonte somos continuamente convocados por sua generosidade a dar continuidade, como sua Igreja no mundo, à missão de Deus historizada por meio de Seu ministério. Nas palavras de Paulo Cezar Botas (1996), Jesus,
enquanto um excluído que se fez proscrito no mundo do amor aos deserdados da terra, tornou pública a situação humana e social, rompeu com todos os preconceitos e reafirmou a misericórdia e o amor como as bases de uma verdadeira humanidade; praticou gestos de generosidade e acolhida; tomou partido da justiça sabendo que seria derrotado em primeira instância pelos ‘poderes deste mundo’ (Hebreus); pois vivia como se visse o invisível (Hebreus), triste, mas sempre alegre, pobre mas possuindo tudo (Paulo) e com a certeza absoluta de que não temos aqui a nossa pátria definitiva, mas buscamos a pátria futura.

           
            O discernimento do Espírito, como diz o autor, nos conduz ao reconhecimento do outro que é diferente. É necessário fazer uma autocrítica nossa e da Igreja, em relação às contradições que existem entre teoria e prática da liberdade. Porque as igrejas pregam tanto a liberdade, sendo a prática da liberdade o que menos favorecem, devendo sempre estar inspirada pelo amor. Em palavras de Moltmann (1978),        
O amor tende a alegrar-se com o outro e com sua maneira de ser diferente, até é capaz de alegrar-se com o inimigo que põem em perigo o próprio direito. Se alegra para a liberdade comum. [...] Liberdade não é independência absoluta unicamente limitada pelas independências dos outros. Liberdade só pode encarnar-se na comunidade de amor, no serviço mútuo e no relacionamento recíproco, assim como na alegria comum. Sem comunidade não há liberdade.


            Assim como sem amor não há liberdade, tampouco há liberdade sem ação do Espírito Santo. A partir da contundente afirmação do Apóstolo Paulo no sentido de que “onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade” (2 Cor. 3.17) então só pela ação sobrenatural do Espírito na Igreja será possível viver a liberdade que corresponde aos filhos de Deus e da qual a Igreja deve ser o paradigma para toda a humanidade e para toda a criação.
            A partir da expressão de que “A verdadeira comunidade de Jesus é aquela que assume a ‘figura do escravo’”, podemos dizer que estamos aqui frente a uma indireta referência a Kenosis de Jesus Cristo indicada em Filipenses 2.
            Neste século, o tema a kenosis é re-atualizado através de filósofos pós-modernos como Gianni Vattimo. Este pensador italiano, (que fez estudos com Gadamer na Alemanha), se refere em suas obras à kenosis de Deus em Jesus Cristo. De sua interessante obra Creer que se cree, cito a seguinte declaração de Vatimo (1996),
         Secularização como fato positivo significa que a dissolução das estruturas sagradas da sociedade cristã e o passo para uma ética de autonomia, para o caráter leigo do estado, para uma literalidade menos rígida na interpretação dos dogmas e dos preceitos não devem ser entendidos como uma diminuição ou uma despedida do cristianismo, mas como uma realização mais plena de sua verdade, que é, recordemos, a kenosis, o abaixamento de Deus, o desmentir dos traços “naturais” da divindade.

            Uma outra observação tem a ver com a referência ao que se chama “mística afastada do mundo”. Eu estou de acordo com a necessidade de criticar este tipo de mística “anti-mundo”. Mas acho que é necessário também indicar que existem místicas “dentro do mundo”.
            Neste sentido, me parece importante que em sua pneumatologia, Moltmann dedica um capítulo a “teologia da experiência mística”, no qual diz que “na realidade a meditação é uma antiga forma de conhecimento que foi reprimida pelo ativismo moderno.” Moltmann reconhece que “os homens modernos precisam pelo menos de um equilíbrio entre a vida ativa e a vida contemplativa, se não quiserem estiolar-se espiritualmente”.
            Só a partir de uma vida de contemplação de Deus, de oração, de fé e de amor a Ele, será possível que os cristãos possam fazer uma missão integral, que se nutre do poder do Espírito Santo, proclama a salvação integral em Jesus Cristo, e conduz aos homens e mulheres a experimentar o poder do Reino escatológico de Deus nas situações difíceis que nos toca viver hoje. A pergunta final, a meu ver, é a seguinte: quais de nossas práticas, discursos, teologias, liturgias, formas de evangelização, formas de missão, são reveladoras de um acomodamento cultural e quais delas são abertas à ação do Espírito de Deus, único capaz de dinamizar nossa missão no mundo de hoje?

           











CONCLUSÃO

            Após muito esforço nesta pesquisa monográfica, e analisar vários textos, alguns deles até em outro idioma, deparo-me com a seguinte conclusão que, desde o século XI, desde que a Igreja se institucionalizou aconteceu como na história de Aladim e a lâmpada, dentro da instituição, dentro dos marcos da igreja, ficou na institucionalidade do Sacramento e da Igreja, ficou reduzido à Bíblia como a Palavra de Deus. Quando imaginei a Bíblia reduzida a dogmas, lembrei daquela velha história de quando os espanhóis chegaram ao Peru e passaram o texto bíblico para os índios, porque aí estava a palavra de Deus. Neste momento o índio que pegou o livro colocou-o na orelha esperando escutar a palavra de Deus, então ele atirou o livro no chão e falou, “seu Deus não fala! Eu não estou escutando nada!” O índio foi considerado herege. Aqueles missionários mostraram a lâmpada mas não o gênio.
            Em outro momento da história temos a inquisição e a caça das bruxas. As bruxas eram as mulheres sábias com um estranho poder ancestral o qual elas não podiam usufruir, o gênio continuava dentro da lâmpada. O que conduziu tudo aquilo da caça às bruxas? O poder do gênio zelosamente guardado na institucionalidade da Igreja onde só os “iniciados” tinham o poder de aceder a ele para seu próprio benefício. A ação do Espírito Santo não podia agir nas mãos das mulheres que curavam doenças, abençoavam ou que exerciam algum dom não aceito pela oficialidade da Igreja.
            E as mulheres mais uma vez ficaram afastadas. Não temos dentro da teologia, além dos escritos de Tereza de Ávila, e as místicas ou Juana Inês de la Cruz mas que não aparecem dentro dos “textos sagrados”. Vamos dizer os textos oficiais da Teologia, e mais uma vez o gênio dentro da lâmpada.
            Agora a minha inquietação é como nós especialistas da Ciências da Religião estamos trabalhando a questão da teologia sistemática para reverter essa visão hierárquica passada através da missão a partir de todos os parâmetros apresentados nesta pesquisa.
            Uma das coisas que a missão está sentindo é a falta do preparo agora, da teologia feminista em todos os seminários de teologia, porque para complementar aquela noção de Espírito Santo, aquela noção de Trindade, aquela noção de toda Teologia Sistemática só temos visto através do poder da igreja, do poder da teologia, poder kiriarcal.
            Agora precisamos friccionar mais uma vez a lâmpada de Aladim para que possamos conhecer o outro lado do pensamento teológico.



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