PROTESTANTISMO BRASILEIRO
LEITE,J.F
INTRODUÇÃO
Para
uma análise de pesquisa como monografia essa é uma tensão fundamental que
reflete a sua limitação e o seu alcance. Como definir a extensão da, digamos,
clientela a ser atingida?
Nas palavras do Bispo Paulo Ayres da
Associação Evangélica Brasileira, a associação representava uma espécie de Arca
de Noé, a qual certamente não era um local agradável para se estar (cavalos,
bois, galinhas etc...), mas certamente na época era o melhor lugar para se
estar. O ponto é que essa Arca e sua variada fauna acabou afundando na primeira
crise.
Em uma matéria da revista Época de
julho de 1998 sobre os brasileiros (Nós, brasileiros?) baseada em um survey
montado por sociólogos americanos a pesquisa quantitativa caiu num sério erro
qualitativo. Quando perguntava o potencial de combinação das religiões com
determinadas características.
As opções eram de religiões: Católica, Evangélica, Protestante, Espírita
e Umbandista. Evangélico e Protestante? Quem é o que? Quais as diferenças?
Nebuloso resultado. As referências ao protestantismo foram baixas.
O protestantismo diz pouca coisa as
pessoas, enquanto evangélico representa para 40% interesse financeiro e para
27% animação. Mesma a baixa relevância social do protestantismo não o protegeu
de aspectos negativos. Para 12% ele está relacionado a “interesse financeiro” e
para 11% ele é conservador e político.
Só como elemento de curiosidade, o
que mais marca o Catolicismo é a religiosidade (64%) e a solidariedade (58%). O
espiritismo destaca-se pela falsidade (10%) e pela solidariedade (10%) e a
Umbanda pela falsidade (23%) e pelo interesse financeiro (9%).
Dentro das ciências da religião as
definições são instrumentos para a análise e servem para nos ajudar a estudar e
entender a realidade.
O quadrilátero de Bebbington (apud FRESTON, 2000) sobre os evangélicos na
Grã Bretanha nos ajuda ao definir quatro características constantes desse grupo
religioso:
1. Conversionismo (ênfase na
necessidade de mudança de vida);
2. Ativismo (ênfase nos
esforços missionários e evangelísticos);
3. Biblicismo (ênfase na
Bíblia, sem cair necessariamente na postura fundamentalista de inerrância);
4. Cruzcentrismo (ênfase na
centralidade do sacrifício de Cristo na cruz).
Victor Rey (2000), aponta que o pentecostalismo perdeu a centralidade da
Cruz ao assumir a “teologia da prosperidade” e a da Palavra ao enfatizar as
emoções. Caso isso seja considerado como um fato, percebe-se que uma boa parte
dos que se definem como evangélicos em nosso continente, na verdade não se
definiram ainda como tal.
O que diferenciaria evangélicos de protestantes? Pode-se afirmar com
alguma tranqüilidade a existência de dois grandes grupos (enormes e
multiformes) que compõe o universo religioso brasileiro: Evangélicos
tradicionais e Evangélicos pentecostais.
Como poderíamos pensar os protestantes nessa divisão? Acredita-se ser
aceito que eles são representados pelos evangélicos tradicionais, mas talvez
não contemplam a totalidade desse grupo.
Além das quatro características de Bebbington também pode-se pensar na
“origem genética” desses grupos. De um lado a Reforma para os tradicionais e de
outro o Avivamento da Azuza Street para os pentecostais. Assim ficam de fora,
por exemplo, os adventistas, grupo apontado por Lalive D’Epinay como
pertencente à fronteira do protestantismo.
I EVANGÉLICOS –
PROTESTANTES.
1.1 O que é ser evangélico, pentecostal ou
protestante?
Segundo Rubem César Fernandes (apud MARIANO, 1998), os pesquisadores
Emílio Willems e Lalive D’Epinay, cujas pesquisas foram feitas na segunda metade
dos anos 60, “aceitaram sem reservas a
equação Catolicismo = tradição, propriedade senhorial, patriarcalismo,
sacralização da sociedade / Protestantismo = modernidade, capitalismo,
democracia, secularização.”
Já o pentecostalismo é visto
com sinais mais negativos em uma série de trabalhos (BASTIAN, 1994; MENDONÇA,
1990; ROLIM, 1985; D’EPINAY, 1970; WILLEMS, 1967): “alienação, conservadorismo, anti-intelectualismo, emocionalismo,
sectarismo, caciquismo, caudilhismo” (MARIANO, 1998).
Do lado pentecostal a crítica também
se faz presente, como afirma o pastor Ricardo Gondim que critica seus pares
por: possuir “cosmologia simplista”,
adotar “inovações cúlticas e teológicas”
acriticamente, ser “vulnerável ao
sincretismo”, evangelizar com “obsessão
mercadológica” e a partir de uma “didática
consumista”, pregar um “evangelho
muito na base do mercantilismo”, “tender
a ser exageradamente legalista”, favorecer o “culto à personalidade” e o “triunfalismo”
(apud MARIANO, 1998).
Investiu-se mais no carisma do que no
caráter. Apesar desse pessimismo para com o pentecostalismo é possível apontar
dentro de recentes trabalhos acadêmicos uma série de aspectos positivos desse
grupo:
A suposta “alienação” pentecostal seria justamente fonte de mudanças
efetivas, porque cria comunidades de descontinuidade e transformação (BURDICK,
1993), enfrenta o machismo com mais eficácia que o feminismo (BRUSCO, 1993),
representa a emergência de uma nova sociedade igualitária (SOARES, 1993),
sinaliza o nascimento de uma verdadeira sociedade civil (ASPÁSIA CAMARGO, FSP
27/01/95), enfrenta de maneira mais convincente as questões do dinheiro,
doença, crise moral e familiar (FERNANDES, Convergência, 2/94), ajudando os
pobres a enfrentarem a pobreza (MARIZ, 1989) e a organizarem a vida (PIERUCCI
& PRANDI, 1996.219). Ao oferecer a seus membros atividades associativas
acaba por influenciar uma maior participação social desses fiéis (FERNANDES,
1998). Diante disso ainda podemos apontar que o pentecostalismo acaba servindo
como estratégia de sobrevivência (STOLL, 190.331) e espaço terapêutico. Da
mesma forma, nota-se que ele pode fortalecer os laços familiares (D’EPINAY,
1970), auxiliar na libertação do alcoolismo (MARIZ, 1994) e constitui, pela
produção de identidades e valores, a principal alternativa à cultura da droga
(VENTURA, 1994).
Já os evangélicos recebem as mesmas
interpretações dos grupos anteriores, tanto as positivas como as negativas, não
recebendo nenhuma distinção específica e transitando entre protestantes
tradicionais e pentecostais, geralmente mais relacionados ao segundo grupo.
Ser protestante, ser evangélico
representa vários caminhos, oposições e uniões. A identidade é construída em
alteridade, sempre em relação ao outro. É nessa identificação que trocas e
diálogos são construídos, tornando-se possíveis ou impossíveis.
Novaes (1996) aponta que o conceito de identidade é mais operacional para
pensarmos a diversa sociedade brasileira do que, por exemplo, o conceito de
“Consciência de classe”.
O conceito de Identidade nos ajuda a considerar a diversidade regional,
étnica, os diferentes trabalhadores “autônomos” e toda a “tradição subterrânea”
que segundo Velho (1994), está relacionada a religião presente em nossa
sociedade.
Quais relações estabeleço me assumindo como pentecostal? E como
protestante? Evangélico? Temos de ter claro esses valores e as relações
intrínsecas a essas opções.
Também deve-se ter em mente o que Paul Freston (1996) nos indica ao
apontar que tradicionais e pentecostais representam hoje tipos ideais nos dois extremos
de um continuum “no qual quase todos os
casos reais são uma mistura criativa e altamente variável (...), sendo que
todos os indivíduos e denominações estão em constante movimento ao longo do
continuum”.
Ele aponta um movimento em ambas direções, para uma pentecostalização do
protestantismo tradicional e para uma historização do pentecostalismo.
1.2
Quantos são os protestantes?
Fazendo projeções a partir do
desempenho da década anterior pode-se afirmar com relativa segurança que os
evangélicos representam cerca de 13% da população brasileira, o que em números
absolutos representa a existência de 20 a 25 milhões de fiéis.
Desse universo o percentual de
pentecostais provavelmente chega a 75%. Acredita-se que o crescimento
evangélico está num processo de estagnação, chegando ao teto de uns 10% da
população (sendo que em algumas regiões ficará em 20%).
Será difícil ele crescer mais devido às várias dificuldades enfrentadas
no nordeste e nas regiões de forte colonização italiana do sul do País onde concentram-se
os municípios com menos de 1% de evangélicos.
Só como ilustração entre 1980 e 1991
a população brasileira cresceu 24%; os pentecostais cresceram 127%, os
católicos 15% e os tradicionais 17%. Como responderíamos hoje a pergunta de
Stoll (1990) sobre a protestantização da América Latina? Talvez a pergunta mais
correta que Stoll deveria ter feito há dez anos seria: A América Latina está se
tornando pentecostal?
Segundo Fonseca (1999), acredita-se
que não. Ao contrário do que aponta Rey, deve-se problematizar esse propalado
aumento de religiosidade. É necessário estudá-lo e a teoria weberiana sobre
secularização ainda parece ser a melhor explicação.
Temos os trabalhos de Hervieu-Léger (1993) sobre as “comunidades
emocionais” e mais recentemente um artigo de Campbell (1998) em que ele sugere
a “orientalização do ocidente” como chave para se compreender o momento atual.
Novas análises, interessantes, mais ainda incipientes que precisam de maiores
elaborações e estudos empíricos.
Não se pode negar que os partidários
do reencantamento do mundo sejam maioria na academia brasileira, mas o ponto é
que em essa maior religiosidade necessariamente não contraria a teoria da
secularização. Deve-se entender a secularização como um processo que dá a
religião-de-igreja um lugar secundário na sociedade.
Nas palavras de Weber ela passa a ser um segundo violino e deixa de
influenciar diretamente as outras esferas sociais, principalmente a do direito
e a do Estado, acontecendo em meio à pluralização do campo religioso, segundo
afirma Pierucci, (1997).
Por outro lado, pode-se pensar
juntamente com Reginaldo Prandi (1996) quando ele nos indica que esse propalado
reencantamento do mundo experimentado em nossa era pode ser entendido não como
ressurgimento da religião em oposição ao desencantamento, mas sim como um
fortalecimento e retorno à magia. O que é bem significativo no chamado
neopentecostalismo como também entre os católicos carismáticos (FONSECA, 1999).
II CONSIDERAÇÕES
METODOLÓGICAS
Considerar o protestantismo em sua
gênese histórica brasileira ressaltando aspectos de sua identidade e formação
de mentalidade não é tarefa fácil. Algumas considerações se fazem necessárias
no sentido de especificar o que se pretende na construção do texto que se segue
bem como explicitar.
A tarefa de se construir um texto que retrate a identidade e mentalidade
do protestantismo deve levar em consideração qual tal empreendimento assume um
caráter mais tipológico do que de considerações particulares segundo os sub-campos
religiosos que compõem o campo religioso protestante histórico.
Isto em virtude dos recortes, configurações e reconfigurações que este
campo religioso apresenta o que viabiliza mais uma caracterização mais plural
de “protestantismos” que “protestantismo”; É só este aspecto que também pode-se
pensar em “identidades” em de identidade;
A historiografia eclesiástica, seguindo o próprio curso da historiografia
geral apresenta-se como de cunho masculino não raras vezes machista. Isto
posto, e num seminário sobre Missão e Identidade onde a perspectiva de gênero
feminina se faz presente (não como “quota” mas como alteridade indispensável no
fazer teológico e missiológico), significa que grande parte da pesquisa bem
como de sua construção textual tomou por base a bibliografia sobre o
protestantismo do final do século passado e início deste a qual ainda aguarda
uma releitura a partir do feminino pelo feminino e não para o feminino, ou
seja, uma historiografia crítica que resgate os “não ditos” e os “desditos” referentes
à historiografia protestante.
Percebe-se que este é um empreendimento em processo o qual deverá
priorizar não somente a “memória” mas, também, o “refazimento” histórico
bibliográfico que se faça necessário;
Optou-se pela não inserção do pentecostalismo na análise do texto
presente, não por questões valorativas, mas sim metodológicas;
Por fim, não quer este trabalho apresentar um caráter inédito na análise
do protestantismo histórico, mas fazer uma releitura crítica a partir de
pesquisas anteriormente realizadas e de acirrados debates desenvolvidos sobre a
temática apresentada.
2.1 O
Cenário sócio-político-religioso brasileiro no final do século XIX com a do
protestantismo.
É preciso que mencione-se que a chegada do protestantismo de missão ao
Brasil aconteceu em circunstâncias muito favoráveis. Tanto a político quanto a
religião vigente, a Católica, não se colocaram, a princípio, como obstáculos. É
mister, portanto, analisar-se qual era este cenário.
Primeiro, os Tratados de 1810, o Tratado de Aliança e Amizade e o do
Comércio e Navegação, entre Portugal e Inglaterra facilitariam não somente o
comércio (abertura dos portos às nações amigas), mas a vinda para o Brasil de
imigrantes com suas respectivas religiões.
Desta maneira, segundo Mendonça (1995) a partir de 1824, chegaram ao
Brasil: ingleses, alemães, suecos e americanos, os quais vão vivendo sua fé
conforme a pertinência da situação.
Em segundo lugar, há a propícia situação decorrente do perfil do clero
católico romano. Segundo Leonard (1981) era um clero que passava por um momento
de crise, de insuficiência de párocos para o atendimento da demanda pastoral,
de afrouxamento na vida espiritual seguida de um arrefecimento do zelo
apostólico e de um declínio moral. Párocos também exerciam atividades
seculares, não raro, o exercício de cargos políticos.
Em terceiro lugar, com a expulsão dos jesuítas em 1759 pelo Marquês de
Pombal, portanto, ainda no Brasil Colônia, apareceu uma nova característica de
catolicismo, que foi chamada por Person (1971) de “Catolicismo familiar” cujo
traço principal, segundo esse autor, era a liderança e comando do “senhor
feudal”,
Este catolicismo tendeu a
ser não doutrinal, com vida religiosa centralizada nas festas as quais foram
freqüentemente uma reflexão do ciclo de plantação. Assim, o capitão juntamente
com a religião que ele simbolizava foi menos um representante de Roma que um
funcionário do senhor da casa grande.
Tal tipo de catolicismo foi marcado,
também, por uma piedade supersticiosa pela valorização das festas aparatosas,
pelo caráter religioso e espiritual individualista e autônomo e, pelo culto
familiar isento de intervencionismo da Igreja Romana, segundo Leonard (1981),
A fraternidade dessas
práticas piedosas, e o amor ao canto levarão, mais tarde, um grande número de
simples caipiras às reuniões protestantes, onde eles se sentirão em completa
igualdade com os mais ilustres, e onde terão prazer de cantar.
Em quarto lugar, a constituição de
1824 representava um salto na questão da liberdade religiosa. Embora o
Catolicismo continuasse a ser a religião oficial, houve uma abertura, com
proteção de direitos, para que aqueles que não professavam a fé Católica
pudessem realizar seus cultos em seus próprios edifícios (extinguia-se a
possibilidade de proselitismo ex-ecclesia e construção de templos). No entanto,
tal benefício já representava um progresso a mais.
Em quinto lugar, destaca-se a
influência jansenista, um movimento relacionado às idéias de Cornelius Otto
Jansen (1585-1638), um teólogo católico flamengo o qual mantinha grande
interesse pelo pensamento de Agostinho, bispo de Hipona. Segundo Hope, dentre
as suas doutrinas e sob a influência do pensamento agostiniano, encontrava-se a
da predestinação segundo a qual sem a graça capacitadora de Deus seria impossível
cumprir seus mandamentos. Essa graça era concebida como sendo irresistível; em
alguns párocos no clero romano, cuja formação sacerdotal provinha
principalmente de Coimbra, Portugal. Tal influência, segundo Leonard (1981),
caracterizava-se pela fomentação de uma piedade austera, culto das Sagradas
Escrituras e independência com relação a Roma.
O padre Diogo Feijó pertenceu a este
circulo de padres “jansenistas” entre 1818 e 1821, o que explica sua atitude de
benevolência, para com o protestantismo, Pierson (1971).
Em sexto lugar, coloca-se como
relevante o trabalho realizado pelas sociedades bíblicas estrangeiras mediante
a venda e distribuição de bíblias no Brasil.
Tal trabalho não somente iria facilitar a vinda dos missionários,
posteriormente, como encontrou boa recepção por parte do clero romano que era
visto por Kidder como amigo da Bíblia, comenta Leonard (1981).
Em sétimo lugar, e um dos mais
importantes elementos que tornaram propícia o estabelecimento do protestantismo
no Brasil relaciona-se ao caráter liberal deste e da política que se configura
no Estado brasileiro. Aqui necessita-se uma análise mais detalhada.
As idéias do liberalismo já se
espalhavam no continente latino-americano. Um exemplo desta pode-se ver no
movimento libertário da Inconfidência Mineira.
Outra corrente filosófica, de forte influência, principalmente na
formação dos novos militares brasileiros, conforme Pierson (1971) era o
positivismo.
A cidade do Rio Grande, no sul do
país, por exemplo, foi fortemente afetada pela Guerra Civil (1893-1895)
fomentada entre Júlio de Castilhos e Gaspar Silveira Martins, movimento de
profunda influência das idéias comtianas.
No final do século XIX e começo do
século XX o país foi marcado, por um lado pelo setor primário de exportação dominado
pela oligarquia e relacionado à posse monolítica da propriedade da terra.
Segundo Bambirra & Santos (1988), as relações comerciais que aí se
estruturavam só podiam relacionar-se com o mundo moderno, capitalista, a partir
da perspectiva do vendedor ou do
consumidor, jamais a partir da do produtor dos instrumentos científicos e
tecnológicos de desenvolvimento.
Neste sentido foi que instaurou-se
na oligarquia uma mentalidade conservadora e anti-modernizadora com o intuito
da auto-proteção (de seus mercados), o que, paulatinamente, no final do século
foi cedendo e dividindo espaço com o incipiente processo de industrialização e
configuração de novas classes sociais; por outro lado já no final do século XIX
encontra-se uma sociedade brasileira às voltas com o processo de
industrialização,
(...) a expansão da produção
agrícola em alta escala destinada à exportação amplia o monopólio da terra,
tende a restringir progressivamente as áreas da economia de subsistência, a
proletarizar uma parte significativa do campesinato, e também a expulsar rumo
aos núcleos urbanos outros contingentes de camponeses, que ali vão oferecer-se
como trabalhadores em troca de exíguos salários (BAMBIRRA&SANTOS, 1988).
Nesta nova configuração econômica, marcada pela produção agrícola em alta
escala e pelo processo de industrialização, despontavam os ideais e desejo do
progresso e da modernização no final do século XIX e início do XX.
Na busca de modelos plausíveis para a busca e concretização de tais
ideais surgiram como um tipo de protótipo do “desejo mimético” a Inglaterra e
os Estados Unidos.
Segundo Pierson (1971), a Inglaterra Protestante com sua vitória em 1815,
sua dominação comercial e tecnológica, e suas instituições políticas, parecem
prover um exemplo, a ser seguido.
Os EUA apareciam como a nação de acelerada expansão geográfica (ao oeste
e ao sul) e conquista de mercados, chegando mesmo a suplantar a própria
Inglaterra.
É a partir do quadro acima que a religião protestante seria
correlacionada à religião do progresso e da modernização liberal, segundo
Bonino (1995),
(...) o ingresso do
protestantismo se explica fundamentalmente por uma situação endógena a América
latina (a luta por uma modernização liberal) e que ali o protestantismo se alia
com setores latino-americanos que impulsionam tal projeto, principalmente com
as ‘associações libertárias’ de distinto tipo (lojas maçônicas, grupos de
intelectuais, sociedade parapolíticas).
Intelectuais, segundo Mendonça (1995), de destaque no cenário político
brasileiro de então, demonstravam idéias favoráveis ao liberalismo e, por
extensão, à religião protestante, como uma de suas representantes, além do
espírito anticlerical que pairava sobre as lideranças políticas interessadas na
modernidade. Dentre eles, Abreu de Lima, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e o padre
e regente Diogo Antônio Feijó.
Diogo Antônio Feijó, como viu-se anteriormente, havia sido influenciado
por idéias jansenistas. Ao assumir a regência do Império (1835-1837), conforme
obra de Skidmore (1998), foi um dos defensores e instauradores de idéias
liberais e modernizantes no Brasil. Dentre suas propostas reformistas
destaca-se, o desejo que o governo convidasse moravianos para educar os índios
brasileiros, a formação de um concílio nacional para separar a igreja brasileira
da de Roma, a proposta para que a província de São Paulo autorizasse casamentos
clericais. Diante de muitas pressões e oposições aos seus projetos, Feijó
acabou por renunciar à regência.
Segundo Leonard (1981), eram os membros da íntima comunidade protestante
que se havia encarregado, desde então, da primeira e já importante atividade
missionária organizada do protestantismo; em 1862, com 150 anos de existência
já havia enviado mais de dois mil missionários pelo mundo afora.
Daniel P. Kidder, o vendedor e distribuidor de Bíblias juntamente com
James Cooley Fletcher, que aqui chegou ainda na minoridade de D. Pedro II,
assim se pronunciou sobre o cenário político religioso brasileiro, “Estamos firmemente convictos que nenhum
outro país católico existe onde seja maior a tolerância ou a liberdade de
sentimentos para com os protestantes” (LEONARD, 1981). A perseguição aos
protestantes, nesta época, restringia-se a casos esporádicos e particulares.
De acordo com Mendonça (1995), é no meio da população pobre e livre, bem
como no ciclo do café que o protestantismo, no qual inclui-se o
presbiterianismo, vai ter o seu maior crescimento.
Do lado norte do Atlântico, as idéias expansionistas concorriam para a
gestação de uma mentalidade que incentivou a vinda dos missionários para o
Brasil, Bonino (1995). O primeiro ponto a ser destacado aqui é a influência da
Doutrina Monroe (1823) na mentalidade americana, Leith (1996). Tal doutrina
esposava a idéia da “América para os
americanos” uma ideologia expansionista ao oeste e ao sul dos EUA num
continuum processo de colonização.
Moura (1991) vê neste processo uma referência religiosa de legitimação no
que se refere ao direito divino de ocupação:
Impressiona também a
convicção de um direito divino à ocupação, assim como de uma missão especial
desse povo na América. Essa crença na sua própria excepcionalidade resultava de
uma tradição religiosa (puritana) que realçava a realização da virtude
individual, assim como de uma tradição republicana que fundava as instituições
políticas na ação e na vontade enérgica de homens livres.
O fato é que imperava na América a
idéia de que a religião e a civilização estavam unidas na visão da América
Cristã e que Deus tem sempre agido através de povos escolhidos, conforme
Mendonça (1995), assim, propagar as idéias cristãs, bem como a civilização
cristã, protótipo do progresso e desenvolvimento decorrentes da “benção” de
Deus, tornavam-se um dever irrevogável. Toda essa mentalidade relacionava-se a
uma interpretação teológica milenarista da realidade que passou a ser conhecida
como “Destino Manifesto”:
Buscava-se um modelo de
sociedade, e a certeza de tê-lo encontrado estava na mente da maioria, assim
como a convicção de que este modelo servia, no espírito do evangelho para ser
compartilhado com todas as nações para que se abreviasse a vinda do Reino de
Deus. O ideal do milênio surge no fim de um processo de construção social de
que todos deviam participar no mundo inteiro e sob a inspiração e liderança
americanas. (MENDONÇA, 1995)
Nesta perspectiva, os
missionários eram imbuídos de um espírito de vocação instrumental para salvar
as nações da perdição eterna e, simultaneamente, viam-se chamados para promover
o avanço da influência política americana no sentido de salvar os países
atrasados do despotismo nativo ou do imperialismo europeu.
É este sentimento de dever associado
à mentalidade otimista de que a cultura americana seria o paradigma a inspirar
o mundo inteiro o american way of life que traria, também, um grande impulso ao
movimento missionário nos EUA, segundo Bonino (1995),
(...) o país (EUA) entra em
uma era de otimismo que contagia também o evangelicalismo. Estados Unidos
aparece agora como um modelo destinado a inspirar o mundo inteiro: o despertar
evangélico, os avanços sociais, se apóiam e se mantêm mutuamente.
Assim, a partir do background acima
exposto com respeito aos ideais civis e religiosos que se imbricam na
empreitada missionária americana ao Brasil, pode-se concordar com Leonard
(1981) que postulava que nem o escravagismo do sul, nem a ávida cobiça do norte
dos Estados Unidos eram atitudes louváveis: entretanto foram atitudes que
concorreram para a obra missionária protestante no Brasil.
2.2
O campo religioso protestante e seus respectivos atores
A presença protestante, no Brasil, segundo
Mendonça & Velasques Filho (1990), dá-se pela primeira vez no período de
1555-1560 com a expedição de Villegaignon, o qual recebeu apoio de Coligny, que
aqui pretendia fundar a França Antártica e ter condições de praticar livremente
o culto reformado.
Tal instalação relacionou-se aos huguenotes franceses e sua presença no
Brasil foi mais marcada por conflitos teológicos internos e por constantes
lutas com os colonizadores portugueses o que resultou na expulsão dos mesmos do
solo brasileiro.
A segunda tentativa está associada
aos holandeses no período de 1630-1645 no nordeste brasileiro sob o comando de
Maurício de Nassau. Em 1630, a Holanda dividia com a Inglaterra o caminho dos
mares e a busca de novos mercados. Nesta época foi que os holandeses chegaram
ao Brasil fundando sua colônia/sede em Pernambuco.
Embora a presença holandesa possa
ser interpretada por alguns pesquisadores como tendo um caráter estritamente
“extrativista” e de aferimento das riquezas pátrias, segundo Antônio Mendonça
(1990), a presença destes ocasionou melhoras como a obrigatoriedade do descanso
aos domingos e a proibição de separação de casais escravos quando negociados,
muito embora no que refere-se à estrutura social escravagista não houvesse
nenhum tipo de alteração.
Os holandeses foram também expulsos
pelos portugueses levando consigo sua religião deixando, no entanto, suas
marcas impressas no imaginário daquele povo, na história e na arquitetura
daquela região.
Depois dos franceses e holandeses
foram os alemães que aqui chegaram. No que refere-se ao tipologizado
protestantismo de imigração (por distinção ao protestantismo de missão),
atribui-se aos alemães, cuja religião característica era o luteranismo (entre
estes havia, também, muitos reformados), conforme o pensamento de Martin Dreher
em Igreja e Germanidade, a presença deste tipo de protestantismo n Brasil.
Estes fundaram em 1824 uma
comunidade na cidade de Nova Friburgo, Rio de Janeiro sob a liderança do Pastor
Friedrich O. Sauerbronn contando com 334 imigrantes evangélicos alemães. No sul
do país, 43 imigrantes alemães fundaram uma comunidade que recebeu o nome de
São Leopoldo, no Vale do Rio dos Sinos. Do interior do Rio de Janeiro e Rio
Grande do Sul os alemães deslocaram-se, ainda, para Santa Catarina, São Paulo,
Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná e vários outros Estados da federação.
Em 1835, chegava ao Brasil o 1º
missionário metodista, Fountain E. Pitts, seguido por Justus Spaulding (1836) e
Daniel P. Kidder (1837). Foi organizada a Primeira Igreja Metodista no Brasil
que teve suas atividades brevemente encerradas em 1842. Em 1871 houve outra
tentativa Metodista de aqui organizar uma Igreja. Tal tentativa foi na cidade
de Santa Bárbara (SP) e, também, permaneceu um período curto que vai de 1871 a
1890.
O marco referência, no entanto, para
considerar-se o início do protestantismo de missão é a chegada do Rev. Robert
Reid Kalley e com alguns fiéis que fugiam da perseguição religiosa em Portugal
(Ilha da Madeira). Em 1858, organiza-se no Rio de Janeiro a Primeira Igreja
Congregacional (Igreja Evangélica Fluminense) e, em 1873 a segunda, em
Pernambuco. Mediante suas pregações e, principalmente sua produção hinódica
juntamente com Sarah Kalley, que resultou na produção do hinário ainda hoje
utilizado em várias igrejas protestantes, Salmos e Hinos,. Rober Kalley
introduziu no Brasil a concepção teológico-protestante conversionista (salvação
individual) como a propagada pelos avivamentos ingleses e norte-americanos e no
pietismo.
A história do protestantismo
brasileiro, como viu-se supra, não começou com a chegada ao Brasil da Igreja
Presbiteriana, mas, a partir desta e do protestantismo de missão começou uma
nova etapa da mesma.
A gênese da Igreja Presbiteriana do
Brasil está relacionada com a vinda do missionário Ashbel Green Simonton
(1833-1867) ao Brasil. Segundo Reily (1984), Simonton, fruto do movimento de
avivamento na Igreja da “Nova Escola” em Harrisburg, EUA (fato este que moldou
sua vida, ministério e, por extensão, o presbiterianismo brasileiro), foi
ordenado ao ministério pastoral na Igreja da “Velha Escola” sob a influência de
Charles Hodge, um dos principais expoentes da ortodoxia da mesma, e enviado ao
Brasil pelo “Board de Nova York” chegando aqui no dia 12 de agosto de 1859 com
o objetivo não somente de evangelizar indivíduos, mas de criar uma igreja que
viesse a ser uma comunidade missionária.
Segundo Reily (1984), sob a
liderança de Simonton, foi fundada, no dia 12 de janeiro de 1862, a Primeira
Igreja Presbiteriana do Brasil no Rio de Janeiro, cujos primeiros membros
recebidos por batismo e profissão de fé foram: Henry E. Milford e Cardoso
Camilo de Jesus, ocasião em que celebrou-se o sacramento da Ceia do Senhor.
Com o objetivo de auxiliar Simonton,
chegaram ao Brasil os Reverendos Alexander L. Blackfor (24/07/1860), que havia
estudado no Western Seminary (Allegheny) e demonstrava um espírito rural e de
fronteira que não seria típico na maioria dos futuros missionários e que seria
indispensável na expansão da IPB, conforme Reily (1984), principalmente em São
Paulo e Minas Gerais e, também, Francis J. C. Schneider (1861), um missionário
presbiteriano de origem alemã.
Enquanto Simonton estabeleceu seu
centro de atuação no Rio de Janeiro, Blackford dirigiu-se a São Paulo fazendo
desta o centro da atividade missionária. Em 05 de março de 1865, segundo
Mendonça (1995), Blackford organizou em São Paulo a Segunda Igreja
Presbiteriana e, com a expansão para o interior paulista, a Terceira Igreja, na
cidade de Brotas, em 13 de novembro de 1865.
É na cidade de Brotas, conforme
documenta Ribeiro (1979), que apareceu um novo ator na história da IPB e que,
sem dúvida, foi responsável pela sua expansão geográfica. Trata-se de José
Manoel da Conceição (1822-1873).
José Manoel da
Conceição, batizado na IPB em 23/10/1864, ex-sacerdote católico romano, foi o
primeiro pastor brasileiro a ser ordenado por ocasião da organização do
primeiro presbitério da IPB (17/12/1865) passando a viajar incansavelmente por
suas ex-paróquias propagando as suas novas crenças e, com isso, certamente
colaborou para a já dita expansão do protestantismo na província de São Paulo e
na zona fronteiriça de Minas, segundo Mendonça (1995).
Leonard (1981), vê em José Manoel da
Conceição o homem que abriria ao protestantismo o interior do Brasil,
conquistando não apenas indivíduos isolados, mas famílias extensas e sólidas. A
estratégia, acima descrita, de visitar suas antigas paróquias, não era sem
razão:
Depois de ordenado pastor,
dedicou-se a visitar e revisitar suas antigas paróquias a fim de corrigir seus
ensinamentos passados e apresentar uma nova mensagem religiosa (...) Não
assumiu nenhum pastorado e só se dedicava a anunciar a mensagem nuclear da Reforma,
a salvação pela fé em Jesus Cristo, e isso de sítio em sítio, de casa em casa,
de cidade em cidade, viajando incansavelmente, quase sempre a pé e até à
exaustão.
(MENDONÇA, 1995)
Do ministério itinerante de José
Manoel da Conceição dependeu a expansão do presbiterianismo brasileiro em sua
fase inicial e seu sucesso relacionou-se muito mais à expansão geográfica,
disseminação da nova fé, do que ao crescimento numérico da IPB neste período e
isto, em virtude do fato de que, para este “padre protestante” o mais
importante era a evangelização e não a organização e manutenção de igrejas
locais.
Para Leonard (1981), uma atitude que relacionava-se com a fobia de cair
nas malhas de uma organização rígida e dominadora como a Católica da qual havia
saído. De acordo com Pierson (1971),
Conceição não deu estrutura
ou direção às comunidades protestantes recentemente formadas e, nas áreas nas
quais outros não seguiram sua pregação e organizaram congregações, seu trabalho
não deixou resultados visíveis.
Além dos missionários do “Board de
Nova York” e do ministério itinerante de José Manoel da Conceição, a IPB nos
seus primórdios contou, também com a presença da missão da Igreja Presbiteriana
do sul dos EUA, através do “Board de Nashville”. A atuação desta última
relacionou-se com a Guerra de Secessão nos EUA (1861-1865), segundo Reily (1984).
Após a derrota dos Confederados
(sul), um grande número de imigrantes norte-americanos veio para o Brasil, onde
a escravatura ainda ocupava seu lugar na estrutura social. Reily (1984), alia
tal vinda, à busca de boa terra a preços acessíveis e a possibilidade de
adquirirem escravos. A maioria instalou-se na cidade de Santa Bárbara, no
interior de São Paulo, e suas adjacências.
Com o objetivo de atender
pastoralmente os imigrantes presbiterianos e atendendo ao pedido de Dabney,
capelão militar americano, a Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana do Sul
(PCUS) enviou ao Brasil os Reverendos George Nash Morton e Edward Lane os quais
fundaram duas comunidades, uma em Santa Bárbara em 26 de junho de 1870 e outra
em Campinas em 10 de julho do mesmo ano, segundo Leonard (1981); do mesmo
“Board” foram enviados em 1873, William Leconte e J. Rockwell Smith para o
Recife.
Muito embora os problemas
decorrentes da Guerra de Secessão, que afetavam as Igrejas do norte e do sul
dos EUA, no Brasil, em 06 de setembro de 1888, foi constituído o primeiro
Sínodo da IPB. Tal união, no entanto, refletia mais o aspecto estrutural e
institucional que de coesão de mentalidade. Erasmo Braga, assim se referia a
esta união:
A união entre presbiterianos
sulistas e nortistas no Brasil, embora estivesse contribuído para o crescimento
dessa denominação, provavelmente tenha contribuído para a evolução das crises
futuras do presbiterianismo brasileiro.(Apud MENDONÇA, op. cit., p.31)
Todo este movimento e esforço
missionário como viu-se até aqui, refletiam, na verdade, uma vertente do
protestantismo brasileiro, a vertente conversionista ou proselitista, cuja
ênfase encontrava-se no anúncio do Evangelho, ou seja, na evangelização melhor
exemplificada na pregação.
A outra vertente era a educacional, segundo Ramalho (1976), um tipo de
evangelização indireta em que aparecia a idéia de que a cultura protestante,
fluindo através da educação, acabaria por transformar a sociedade para melhor e
inseri-la no corpus christianum (MENDONÇA & VELASQUES FILHO, 1990).
É sob esta perspectiva que surgiram,
no Brasil, as Escolas Protestantes apresentando, segundo Mendonça (1995), dois
níveis de atuação, um, relacionado ao aspecto ideológico visando uma
transformação cultural (brasileira) obviamente tomando por base o protótipo da
cultura e desenvolvimento americano como ideais; outro relacionado ao aspecto
instrumental, um meio para se auxiliar a evangelização. O primeiro caso foi
representado pelos colégios americanos e o segundo pelas escolas paroquiais.
O fato de que o sistema educacional
na época do Império era fraco, não conseguia alcançar as crianças em idade
escolar, principalmente às da zona rural. Dois fatores foram importantes para
esta contribuição presbiteriana ao ensino educacional brasileiro: o primeiro
relaciona-se ao fato de que, expandindo-se o presbiterianismo na zona rural
brasileira antes mesmo de surgirem os salões de culto, já funcionavam as
escolas nas casas particulares, às vezes do próprio pastor; o segundo é que
devido ao fato de o analfabetismo ser um empecilho ao próprio desenvolvimento
do fiel na fé protestante, pois esta escava calcada na máxima da Sola Scriptura
a qual deveria ser lida, estudada e praticada, este aparecia como um mal a ser
estirpado mediante o ensino nas escolas paroquiais.
No final do século XIX e começo do
século XX, a expansão do protestantismo dava-se, também, a partir dos cismas
apresentados pelo mesmo. Não cabe a esta pesquisa ponderar os aspectos
positivos e/ou negativos sobre tais cismas apenas ressaltar que os mesmos,
direta ou indiretamente, acabaram por resultar na expansão geográfica do
protestantismo. No que refere-se à Igreja Presbiteriana do Brasil, o primeiro
destes cismas foi o ocorrido com Miguel Vieira Ferreira. Este numa suposta
visão obtida numa das pregações de Blackford foi levado ao batismo sendo
admitido como membro na Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro.
O fato é que este líder, importante
divulgador do presbiterianismo, desde sua conversão mostrava-se dado a visões e
revelações diretas de Deus. Sendo argüido pelo Presbitério do Rio e, não
abrindo mão de suas convicções deixou a IPB e fundou, no dia 11 de setembro de
1879, a Igreja Evangélica Brasileira com mais 27 membros, na maioria parentes
seus.
O segundo cisma, ainda relacionado à
Igreja Presbiteriana do Brasil, ocorreu em 1903, donde surgiu a Igreja
Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB).
No final do século XIX e início do
subseqüente, líderes da IPB já demonstravam um notável desejo de uma igreja
autóctone, dirigida pelos seus próprios líderes brasileiros. Tal ideal foi
conduzido, principalmente, por Eduardo Carlos Pereira (1856-1923).
Pereira, notável por sua capacidade intelectual e, também, como gramático
da língua portuguesa, bem como por seu enérgico caráter, o qual propunha uma
plataforma de mudanças na IPB. De acordo com Leonard (1981) estas seriam:
1. independência e soberania
espiritual da IPB, incluindo a renúncia dos missionários norte-americanos em
participar dos presbitérios que a regiam, caberiam a estes a tarefa de abrir
novos campos missionários; 2. Incompatibilidade do Evangelho com a maçonaria –
esta havia provido, muitas vezes proteção aos missionários e evangelistas
protestantes e líderes da igreja que eram, também, maçons; 3. A educação dos
filhos da Igreja nas Igrejas, pela Igreja e para Igreja, antagônica à posição
do “Board” que abria a educação ao público, em geral.
Já em 1886, Eduardo Carlos Pereira dava origem a um Plano de Missões
Nacionais cujo objetivo era tornar a igreja brasileira auto-suficiente, o mais
breve possível, podendo manter seus pastores, professores e evangelistas sem
ajuda exógena.
De acordo com Mendonça (1995), nacionalismo e maçonaria estavam,
portanto, nas bases da plataforma eduardista. É bom que se ressalte que a
questão maçônica passou para a história como única causa de tal cisma, o que
declina-se da verdade dos vários fatores nele envolvido.
A situação tornou-se insustentável quando da reunião do Sínodo da IPB,
realizada na Igreja Unida em 28 de julho de 1903. Após uma pastoral encomendada
pelo Sínodo, o cisma tornou-se inevitável devido às divergências de opinião. No
dia 1º de agosto de 1903 foi constituída a Igreja Presbiteriana Independente do
Brasil (IPIB).
De 1903 em diante a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil
apresentou um considerável crescimento tendo uma posterior estagnação
principalmente relacionados a questões cismáticas donde em 1942 deu origem à
Igreja Presbiteriana Conservadora de teologia fundamentalista e a Igreja Cristã
de São Paulo que postula uma teologia liberal.
A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil caracteriza-se, mesmo de
maneira antagônica, a IPB, por uma postura mais flexível e de relacionamento
mais fraterno com outras igrejas cristas sendo membro, inclusive do Conselho
Latino-americano de Igrejas (CLAI) e da Aliança Mundial de Igrejas Reformadas
(AMIR).
No caso dos Metodistas, após suas duas tentativas de inserção no país, as
quais não lograram êxito como viu-se, os mesmos estabeleceram-se em definitivo
em solo brasileiro em 1886 fruto da labuta de Junius E. Newman, John Ramson, J.
W. Koger e James L. Kennedy. Os metodistas ao contrário do presbiterianismo
estabeleceram-se em cidades sendo que seu crescimento deveu-se, principalmente,
à atuação de seus colégios como Colégio Piracicabano, Universidade Metodista de
Piracicaba, Instituto Bennett (RJ), Instituto Izabela Hendrix (BH) e, também, a
Universidade Metodista de São Paulo. Os metodistas mantêm uma postura teológica
arminiano-wesleyana também impregnada pelos movimentos avivalistas da
Inglaterra e dos Estados Unidos da América. No Brasil, mantém uma postura
ecumênica sendo filiada ao Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e ao CONIC
(Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil).
A igreja Batista chegou ao Brasil em 1881 com a chegada dos missionários
William Bagby e Zacarias Taylor fundando no ano subseqüente a primeira Igreja
Batista. Como as demais ramificações do denominado protestantismo histórico a
Igreja Batista também apresentou uma vertente educacional de atuação muito embora
não tão extensivo quanto as demais denominações protestantes aqui mencionadas.
No Brasil, os Batistas são caracterizados como mantendo uma teologia de
cunha ultra-conservador fato este explicável em virtude do fato desta
denominação proceder historicamente e teologicamente da Convenção Batista do
Sul dos Estados Unidos a qual baseava sua referência teológica no
“landmarkismo” um tipo de corrente teológica ultraconservadora e radical dos
batistas da América do Norte.
Além do caráter ultraconservador, as igrejas batistas desde o princípio
caracterizavam-se pela mentalidade conversionista individualista e pela
influência teológica arminiano-wesleyana. Os Batistas brasileiros são
caracterizados como aqueles que vivem uma ética radical, uma vivência denominacional
exclusivista e de quase ausência de diálogo, cooperação e interação com outras
denominações cristãs e de radical negação de qualquer tipo de diálogo
ecumênico.
Outra igreja que chegou ao Brasil foi a Igreja Episcopal Brasileira,
atualmente Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, mediante o trabalho
missionário (estabelecimento da obra missionária permanente) dos episcopais
Lucien L. Kinsolving e James W. Morris (1889) sendo estes enviados pela Igreja
Episcopal Protestante dos Estados Unidos.
Na verdade, segundo os registros históricos desta Igreja, a presença
anglicana no Brasil remontaria ao ano de 1810 nas cidades de Niterói e,
posteriormente Rio de Janeiro, São Paulo e Belém do Pará.
Segundo Reily (1979), no entanto, o primeiro obreiro, enviado pela
Sociedade Missionária Doméstica e Estrangeira (1820) da Igreja Episcopal, foi
W. H. Cooper em 1853, o qual não chegou ao Brasil por motivo de naufrágio do
navio no qual embarcara. O segundo missionário a ser enviado foi Richard Rolden
o qual trabalhou no Pará e na Bahia por um período curto de três anos
(1860-1864).
A primeira Igreja Anglicana surgiu em 1898 no Rio Grande do Sul
expandiu-se para o Rio de Janeiro (1908), São Paulo e Santa Catarina (1920).
Dentre as características desta Igreja pode-se elencar a não rigidez ética
característica, por exemplo, das Igrejas Presbiterianas e Batistas, maior
presença do elemento ritualístico, a utilização do Livro de Oração Comum como
base litúrgica e de fé. É claro que o maior ou menor grau da presença ritualística
pode variar de uma igreja para outra dentro do anglicanismo. No Brasil, a
Igreja Anglicana é também conhecida pela sua participação ecumênica.
III MATRIZES ÉTICO-TEOLÓGICAS E A FORMAÇÃO DA
IDENTIDADE NO CAMPO RELIGIOSO PROTESTANTE BRASILEIRO
Procura-se elencar abaixo alguns
traços comuns e presentes, principalmente, no aqui denominado protestantismo de
missão. Posteriormente tecem-se algumas considerações sobre o protestantismo de
imigração. É preciso que se tenha em mente que tal análise é tipológica não
pretendendo estabelecer as mais variadas combinações e coloridos, presenças e
ausências, em um caso e outro, de inúmeras possibilidades que análise de casos
denominacionais particulares podem oferecer.
Seria inconcebível, a princípio,
pensar-se num protestantismo brasileiro típico reflexo do protestantismo
europeu. Segundo Mendonça (1998), o protestantismo que aqui chegou foi produto
de uma dupla diáspora, ou seja, uma diáspora norte-americana e outra brasileira
o que faz do protestantismo local um protestantismo bem típico, ou seja, não
clonado do europeu ou americano. Cabe, aqui, portanto, buscar as matizes sobre
as quais se formaram as concepções ético-teológicas do protestantismo
brasileiro.
O primeiro ponto a destacar-se é que
o protestantismo de missão brasileiro, como viu-se até aqui, traz consigo
traços da teologia arminiana e dos movimentos avivalistas do século XVIII e
XIX. Tal assunto já foi bem pautado pelos estudiosos do protestantismo
brasileiro. No entanto, é mister o destaque de alguns destes elementos.
Começa-se pela teologia arminiana metodista. Para Mendonça (1998), tal teologia
seguia o fluxo e a influência do pensamento filosófico evolucionista o qual
reforçava o crédito na capacidade de aperfeiçoamento e progresso do indivíduo e
da sociedade.
O arminianismo, fruto do pensamento
do teólogo holandês Jacobus Arminius, traz consigo as marcas de um movimento
doutrinário antagônico àquele proposto pelas tradições agostiniana, luterana e
calvinista. Arminius cria, segundo Walter Elwell, (dentre outras coisas, que a
predestinação é condicional, nada mais é do que salvar aqueles que se
arrependem e crêem, portanto todos têm esta possibilidade. A ênfase arminiana
recaía, pois, na liberdade humana de escolha, opção. A expiação de Cristo
(morte pelos pecadores) torna-se ilimitada em seus benefícios e o crente é
vulnerável à perda da salvação se não manter-se em tal estado.
Tal concepção teológica apareceu nos
movimentos de avivamento. Em que sentido? Na concepção do amor universal de
Deus, à disposição de todos, no voluntarismo, decisão e opção livre de
responder a este amor, na conduta ética rigorosa daí procedente e exigida, ou
seja, a ênfase na capacidade humana fundada sobre o valor do homem e sua
capacidade de realizar coisas, em suma, o individualismo e o desempenho,
segundo Mendonça (1998).
Aliada à idéia do desempenho, estava
a da perfeição ou do aperfeiçoamento. Tal ênfase encontra-se, sobretudo em John
Wesley (1703-1791) que pregava enfaticamente a santificação (busca da
perfeição, aprimoramento nesta vida), a perfeição cristã como estado da
plenitude da fé, a partir daí, são enfatizados o arrependimento, a convicção
dos pecados e a experiência pessoal de regeneração.
Neste ponto, aparece uma outra
importante característica, a da conversão. Conversão relaciona-se a esta
necessidade de experiência pessoal de regeneração, de encontro com o Cristo que
oferece a salvação:
(...) a necessidade de
conversão e a experiência cristã foram enfatizadas no protestantismo na América
do Norte, especialmente na fronteira pagã, sua ênfase no Brasil veio não apenas
através da formação dos missionários, mas das necessidades da situação (...)
ela foi poderosamente motivada, presumivelmente por uma experiência pessoal de
conversão. E para distinguir-se a si mesmo e seus membros do mundo que a
cercava, a nova igreja redigiu facilmente linhas discerníveis de conduta ética
proibindo determinados divertimentos, fumo e uso de bebidas alcoólicas.
(PIERSON,1971)
Acrescenta-se aqui, o caráter emotivo
e “apelativo” das pregações envoltas nesse clima avivalista, bem como os
cânticos entoados. Uma síntese sugestiva da teologia presente nestes movimentos
é apresentada por Velasques Filho (1990),
A teologia original dos
avivamentos nos Estados Unidos centrava-se no medo da punição eterna, na
soberania absoluta de Deus e na doutrina calvinista de eleição. Agora, ela se
volta para a capacidade livre do ser humano de aceitar ou rejeitar a salvação
que Deus, através de Jesus Cristo e por obra do Espírito Santo, oferece a todas
as pessoas. A função do pregador era convencer seus ouvintes de seus pecados,
levá-los ao arrependimento e torná-los responsáveis pela aceitação ou rejeição
da salvação. Para isso, era necessário que se criasse um clima altamente emocional,
onde choros, desmaios e ataques histéricos eram habituais.
O segundo elemento que elenca-se diz
respeito à ética puritana, o referido weberiano do ascetismo intramundano,
segundo Weber (1987), em 1620, os puritanos (Pilgrim Fathers) fugindo da
perseguição religiosa na Inglaterra e imbuídos do sentimento de se construir no
novo continente (Nova Inglaterra) uma sociedade segundo o protótipo de Deus no
Novo Testamento, chegam à bordo do navio Mayflower nos EUA trazendo consigo
suas concepções religiosas, obviamente, adaptadas ao novo continente.
Uma das marcas deste puritanismo foi
o rigorismo ético. De acordo com Mendonça (1998) a disciplina rígida dessas
igrejas indicava uma religião puritana, solidamente bíblica, de espiritualidade
profunda, zelosa e severa, dominando todos os setores da vida, tanto social
como individual. Segundo Velasques Filho (1990), a ética puritana apresentava
um caráter negativista para a qual era importante deixar de fazer certas coisas
que identificavam o crente como mundano ou retinente às exortações dos
evangelistas ou exortadores eclesiásticos.
Para Pierson (1971),
(...) se o propósito
principal da religião[presbiteriana] foi trazer não somente perdão, mas nova
vida e libertação do pecado e, se pecado foi definido primariamente em termos
de vícios, logicamente o maior dever da ética cristã seria abandonar certos
vícios, geralmente vistos como fumar, beber, jogos de azar, divertimentos
duvidosos e sexo fora do casamento.
Tal ética foi sempre reivindicada
como um elemento de distinção da fé protestante da vivenciada no meio católico
romano, sendo este visto pelos protestantes de concepções puritanas, como
detentor de uma ética frouxa e em descompasso com as exigências de Deus
revelada na Bíblia.
O terceiro elemento relaciona-se à
questão dogmática. O dogmatismo foi um traço marcante no protestantismo, de
suas bases. Mendonça (1995) chega a distinguir duas vertentes no
protestantismo, uma de origem mais mística relacionada a Lutero e outra
racionalista ligada ao reformador suíço João Calvino (1509-1564). Estas duas
vertentes uniram-se no século XVIII dando surgimento àquilo que o autor
referido denomina de Escolástica Protestante, de acordo com Moreira &
Zicman (1994).
Moreira & Zicman (1994) afirma
que consistiria esta Escolástica de,
Todos aqueles princípios,
dogmas e idéias que se desenvolveram durante o período da reforma propriamente
dita, consolidaram-se num sistema orgânico de crença religiosa. Além destas
características, as proposições corretas, definições elaboradas, a
fundamentação da fé em termos racionalmente coerentes faziam parte desta
Escolástica. No início do século XX surgia o fundamentalismo o qual foi um dos
responsáveis (principal) por tornar tais definições e racionalizações da fé em
dogmatismos e defesa da “sã doutrina”. Esta concepção de ortodoxia sempre
acompanhou grande parte das denominações protestantes históricas no Brasil.
O denominaciolismo e o espírito de
competitividade foram outros elementos constitutivos deste rosto típico do
presbiterianismo brasileiro. A configuração denominacionalista aconteceu em
solo norte americano e foi transplantada para o Brasil.
Tal concepção denominacionalista descansava sob o pressuposto da
associação voluntária, no caso do presbiterianismo tal associação ou participatividade
efetiva (tornar-se membro da igreja) dá-se por profissão de fé e batismo, tal
profissão de fé via-de-regra é realizada solenemente em culto público onde o
candidato manifesta-se positivamente a algumas perguntas de cunho doutrinário e
ético ao dirigente/pastor.
Tal ato dar-se-á após uma peregrinação catequética e de aprovação pelos
dirigentes da igreja local, denominado, Conselho.
Muito embora, nos primórdios o
denominacionalismo fosse marcado além do voluntarismo, também pelo caráter
propagandista/ideológico, da doutrinação como portadora de um propósito divino
e do aspecto unitivo ecumênico (não
havia a si mesma portadora exclusiva da verdade) com o passar do tempo as
denominações entraram num processo de competitividade, de afirmação e legitimação
do discurso próprio em detrimento dos outros discursos existentes, ou seja, o
denominacionalismo para sua sobrevivência afirmou-se como exclusivista e
detentor da verdade (vontade de Deus).
No Brasil, embora houvesse casos de
cooperação na evangelização, nos primórdios, principalmente entre Metodistas,
Congregacionais e Presbiterianos, o denominacionalismo foi marcado pelo
exclusivismo e pela competitividade. No entanto, este aspecto
denominacionalista foi visto como atraente nos meados e final do século XIX,
pois sua eclesiologia tornou-se atraente à atmosfera liberal reinante, conforme
expressa Mendonça & Velásquez (1990).
Os protestantes vinham
chegando com suas múltiplas denominações, situando-se lado a lado e em pequenas
comunidades as quais apesar de aparente unidade de fé, na realidade
apresentavam características de concorrência. Ao contrário do monolitismo
Católico, os protestantes já chegavam divididos.
A esta práxis eclesiológica
denominacionalista aliou-se o espírito proselitista. Tal espírito configurava o
tipo de evangelização dos primeiros missionários até nossos dias.
Excetuando-se, a princípio, o
protestantismo de imigração cujo traço principal era a manutenção e atendimento
pastoral de comunidades de imigrantes vindos para o Brasil, o protestantismo de
missão era essencialmente proselitista.
O protestantismo de missão mantinha uma postura de busca de conversão de
católicos e adeptos de outras religiões aqui presentes bem como competia com
outras denominações protestantes. Segundo Pierson (1971), por exemplo, os
presbiterianos brasileiros competiam não com anglicanos e luteranos que não
foram agressivamente missionários, mas com batistas e metodistas e, mais tarde,
com os pentecostais.
Atitude anti-católica é outro
elemento a ser considerado. Quando o protestantismo aqui chegou, como viu-se, o
clima era favorável à nova religião. O Catolicismo que não lhe imprimia uma
sistemática perseguição, fora casos isolados, com o passar do tempo travou uma
luta sem tréguas com o protestantismo.
Segundo Leonard (1981), pelo lado
católico tal disputa no campo religioso inseriu-se, principalmente, com a
chegada de clérigos europeus, cuja formação era marcada por uma mentalidade
apologética em oposição às idéias geradas no século XVI pela Reforma, ou seja,
suas concepções eram de um catolicismo ultramontano. Pelo lado protestante a
atitude anti-católica vinha como herança do “antipopery” dos não conformistas
britânicos acrescidos do caráter defensivo e tímido de que se revestem todas as
ideologias dos Estados Unidos.
Ainda, segundo Leonard (1981), o
protestantismo brasileiro foi marcado pela propaganda anti-católica, pelos
discursos inflamados sobre as heresias e apostasia romanas, pelas publicações
ostensivas e confrontativas, pela prática do rebatismo de crentes convertidos
do catolicismo, dentre outras atitudes.
Para Simonton,
segundo Bonino (1995), por exemplo, a Igreja Católica havia se desviado dos
princípios bíblicos, ou seja, uma igreja paganizada,
Uma religião cristã só de
nome, distante de suas origens, mitológica, mais propícia aos ricos,
contraditória, mantida por um cerimonial externo e responsável em voa parte
pela irregularidade reinante na sociedade e que caracterizava a Igreja Católica
pelas facilidades que oferecia aos seguidores era a religião da maioria. Por
isso, Simonton exortava os seus ouvintes a se acautelar contra essa aparente
superioridade.
Segundo Bonino (1995), a retórica
protestante, neste período, e subseqüente, iria apoiar-se nos mesmos argumentos
clássicos contra o catolicismo da época da Reforma, ou de corrupção, ou de
obscurantismo ou de autoritarismo seja da igreja, seja de seus representantes.
Outro elemento está relacionado à
questão da concepção da participação na esfera social. O protestantismo
brasileiro, via-de-regra, foi influenciado por uma dicotomização entre o
espiritual e o temporal, ambos concebidos como esferas distintas e
inconciliáveis.
Num primeiro momento, tal
mentalidade relacionava-se às discussões em torno do escravagismo nos EUA,
discussões estas que estavam perturbando a vida das igrejas. Surge assim,
visando solucionar tal impasse, a doutrina da “Igreja Espiritual” a qual numa
correlação platônica de interpretação da fé separava, fragmentava o universo em
duas esferas distintas e de atuação, de um lado, o temporal, secular, por
extensão, o político, o público, a esfera do profano etc; do outro, o
espiritual, o reino de Deus, a esfera do sagrado, do agir da igreja. De acordo
com Mendonça (1995),
A Escritura, tida como
constituição da igreja, estabelece o princípio do “daí a César o que é de César
e a Deus o que é de Deus”. Questões de jurisprudência e política pertenciam a
Cesar; daí questões espirituais como conversão e conduta, constituírem as reais
preocupações da Igreja.
De acordo com Bonino (1995), os raros momentos
de participação político-social de grande parte do protestantismo foi nos
momentos de intensa perseguição religiosa ou quando a liberdade religiosa
viu-se ameaçada, ou seja, quando:
(...) a necessidade de
encontrar o espaço social para sua vida e desenvolvimento pessoal e comunitário
obrigam o crente a preocupar-se pelas condições políticas que lhe assegurem tal
possibilidade: liberdade religiosa, secularização de serviços como a educação,
o matrimônio, ou os cemitérios, não discriminação no trabalho e na educação e
inclusive a preocupação pela condição dos mais pobres. Porém, há que se notar
que esta dimensão pública não objetiva integrar-se de maneira direta no
horizonte de sua fé, aparece como conseqüência derivada ou como uma esfera
independente na qual há de se dar um testemunho de honradez e responsabilidade.
Quando as condições sociais já não aparecem exigir essa defesa das liberdades,
facilmente depreende-se destas posições.
Outro fator relaciona-se a uma
mudança gradativa de concepção escatológica. A mentalidade escatológica dos
missionários que aqui chegaram era pós-milenista, a qual propunha que as
promessas apocalípticas do milênio teriam lugar no tempo presente onde o
Espírito de Deus seria derramado e o evangelho seria anunciado a todas as
nações, uma era de bem-aventurança ao final da qual Cristo retornaria. Uma
visão otimista da história. É nesse sentido que, Bonino (1995) expressa:
(...) o caminho do Reino vem
a identificar-se com o progresso humano e se vêem os avanços da cultura
norte-americana como sinais de um futuro em que a conjugação da religião e o
progresso da civilização criaram uma era de paz, justiça e prosperidade.
Deve-se ressaltar que tal mudança na
sociedade via-de-regra era refletida pela idéia da conversão do indivíduo como
instrumento para a transformação da sociedade, pela instrumentalidade indireta
da educação, cujo objetivo era alavancar o avanço cultural dos países mais
atrasados e, pelos projetos assistencialistas aos menos favorecidos que no
Brasil tomou forma, geralmente, na construção de hospitais, escolas, creches,
orfanatos, asilos e ambulatórios médicos.
Com a transição do século XIX para o
século XX e com o irrompimento da Primeira Guerra Mundial, tal concepção
pós-milenista foi suplantada por uma pré-milenista que colocava o mundo num
processo degenerativo contínuo em que o evangelho apareceria como instrumento
de salvação para aqueles que o aceitassem. Ao final do presente vivido o mundo
teria sua paga pelos males cometidos. Os crentes com Cristo reinariam.
Segundo Pierson (1971), os primeiros
missionários nas suas concepções éticas encontraram no Brasil um similar
parente. No contexto rural, a ética das fervorosas católicas (carolas) em muito
assimilava-se à ética protestante ascética. Tais tendências reforçariam a
vivência e exigência ética protestante. No entanto, tal mentalidade ética “forçando o protestantismo a uma forma mais
sectária tendeu a anular o que diz respeito a uma ética social que veio com
alguns missionários e existiria em alguns pastores brasileiros”.
Por fim, aparece a questão do
discurso. O protestantismo que aqui chegou trazia consigo as marcas de uma
religião do discurso, do discurso e das pregações corretas. Tais pregações
serão marcadas por uma ética típica de uma classe de segmento médio da
sociedade. Ou seja, um discurso envolto num “espírito burguês” pronunciado num
mundo rural.
Tais características são
imprescindíveis na busca da compreensão da mentalidade e formação da identidade
do protestantismo de missão que aqui chegou no final do século XIX e início do
XX.
No que refere-se ao denominado
protestantismo de imigração no momento em que instala-se no Brasil nos mais
variados períodos do final do século passado e início deste pode-se verificar
que o mesmo, de maneira geral, fundamentava-se sob o postulado da manutenção da
fé daqueles que chegam ao Brasil, ou seja, o atendimento espiritual destes numa
terra em a religião predominante era a Católica. Desenvolveu-se, desta forma um
eclesiologia mais ad intra que ad extra.
Ainda sobre o protestantismo de
imigração, principalmente na região sul do país é preciso que se paute que o
mesmo estava inserido dentro de toda uma conjuntura étnico-antropológica.
Os imigrantes que aqui chegaram traziam consigo suas tradições, seus
costumes, suas línguas suas cosmovisões sociais, político, religiosas e,
também, nacionalistas. Isto fez com que em muitos casos estes imigrantes
“reproduzissem” uma parte do país originário aqui no Brasil.
O resultado era o estabelecimento de “guetos étnicos” com fortes vínculos
tradicionais e de caráter segregacionista o que pode, ainda hoje, ser uma das
hipóteses para explicar a mentalidade separatista da federação brasileira
sempre mais forte no sul do país.
CONCLUSÃO
Como verificou-se neste trabalho de pesquisa, o protestantismo
brasileiro, principalmente o considerado de missão adquiriu um rosto típico em
solo brasileiro que lhe permitiu vivenciar um caráter bem particular montado a
partir de elementos de vários movimentos tanto da Europa quanto dos Estados
Unidos e aglutinados em sua cosmovisão religiosa, político e social.
É preciso que se entenda esta confluência para se chegar a uma correta
hermenêutica deste protestantismo tanto nos seus primórdios quanto na atualidade,
muito embora as configurações na atualidade trazem novas roupagens dificultando
a própria análise desta identidade do protestantismo, ou melhor, expressado,
“protestantismos”.
Muito embora, no entanto, estas várias transformações e transmutações do protestantismo
(histórico) neste século XXI, os traços aqui descritos e analisados e presentes
nos seus primórdios como formadores de sua identidade ainda vazam o imaginário
de seus fiéis o que auxilia na compreensão causal da, ainda, dificuldade de
participação e confrontação com o Catolicismo Romano, do apego ao dogma e
defesa da “sã doutrina”.
É obvio que estas são características gerias que hodiernamente podem
variar de acordo com os sub-campos ou denominações dentro do campo religioso
protestante histórico, porém, de alguma maneira elas estão aí, dadas, presentes
no imaginário e na cosmovisão dos fiéis.
No que refere-se ao protestantismo de imigração o que pode-se verificar é
que, também em escala maior ou menor, de acordo com os seus sub-campos, ele tende
a uma maior inter-relação na sociedade brasileira, fruto da mudança das
gerações?, fruto da própria necessidade de sobrevivência?, ou, quem sabe, em
nosso século, efeito das ingerências de outros mundos religiosos e de
arrefecimento das próprias tradições, efeitos estes resultantes da
mundialização e globalização da própria religião? Hipóteses a serem trabalhadas
e que num futuro não muito tardio poderão trazer um novo rosto a esta vertente
do protestantismo.
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